O que é a Terapia Cognitivo-Comportamental
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma abordagem psicoterapêutica estruturada, baseada em evidências, que se concentra na relação entre pensamentos, emoções e comportamentos. Desenvolvida na década de 1960 por Aaron T. Beck, a TCC parte do princípio de que não são os eventos em si que determinam o sofrimento emocional, mas a forma como o indivíduo interpreta esses eventos. Essa premissa fundamenta todo o modelo cognitivo e orienta as intervenções clínicas utilizadas até hoje.
No Brasil, a TCC é reconhecida pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) como abordagem psicoterapêutica válida e tem sido uma das modalidades mais procuradas tanto em consultórios particulares quanto no Sistema Único de Saúde (SUS). A Organização Mundial da Saúde (OMS), por meio das diretrizes do mhGAP (Mental Health Gap Action Programme), recomenda a TCC como tratamento de primeira linha para diversos transtornos mentais, incluindo depressão, transtornos de ansiedade e transtorno obsessivo-compulsivo.
Com mais de 2.000 estudos clínicos publicados nas últimas cinco décadas, a TCC acumulou um volume de evidências científicas que a posiciona como a abordagem psicoterapêutica mais pesquisada e validada empiricamente no mundo. Essa base sólida de pesquisa é o que diferencia a TCC de outras modalidades e sustenta sua aplicação em contextos diversos, desde a clínica privada até programas de saúde pública.
Fundamentos Teóricos da TCC
O Modelo Cognitivo de Aaron Beck
O modelo cognitivo proposto por Aaron Beck na década de 1960 surgiu a partir de observações clínicas com pacientes deprimidos. Beck identificou que esses pacientes apresentavam padrões recorrentes de pensamentos negativos e distorcidos sobre si mesmos, sobre o mundo e sobre o futuro — o que ele denominou “tríade cognitiva negativa”. Essa descoberta representou uma mudança paradigmática na compreensão dos transtornos mentais, que até então eram explicados predominantemente por modelos psicodinâmicos ou puramente comportamentais.
Segundo o modelo cognitivo, a experiência emocional de um indivíduo é mediada por suas cognições — pensamentos, imagens mentais e crenças. Essas cognições operam em diferentes níveis de profundidade. Na superfície estão os pensamentos automáticos, que são rápidos, involuntários e frequentemente distorcidos. Em um nível intermediário encontram-se as crenças intermediárias (regras, atitudes e pressupostos). No nível mais profundo estão as crenças nucleares (ou esquemas cognitivos), estruturas rígidas formadas na infância que organizam a forma como o indivíduo processa informações.
Distorções Cognitivas
As distorções cognitivas são erros sistemáticos no processamento de informações que contribuem para a manutenção de estados emocionais disfuncionais. Beck e seus colaboradores identificaram mais de uma dezena de distorções cognitivas comuns. Entre as mais frequentes na prática clínica estão a catastrofização (superestimar a probabilidade e a gravidade de eventos negativos), a generalização excessiva (tirar conclusões amplas a partir de um único evento), o pensamento dicotômico (classificar experiências em categorias absolutas de “tudo ou nada”), a leitura mental (presumir conhecer os pensamentos dos outros) e a desqualificação do positivo (desconsiderar experiências positivas como irrelevantes).
A identificação dessas distorções é um passo fundamental no processo terapêutico da TCC. Quando o paciente aprende a reconhecer seus padrões distorcidos de pensamento, torna-se capaz de questionar a validade dessas cognições e desenvolver interpretações mais realistas e funcionais dos eventos que vivencia.
A Integração Comportamental
Embora o nome “cognitivo-comportamental” sugira a combinação de dois modelos, a TCC não é simplesmente a soma de técnicas cognitivas e comportamentais. A abordagem integra os dois componentes de forma orgânica: as técnicas comportamentais são utilizadas tanto para testar hipóteses cognitivas quanto para promover mudanças diretas no comportamento. Por exemplo, a ativação comportamental — técnica amplamente utilizada em casos de depressão — combina a programação de atividades prazerosas (componente comportamental) com a identificação de pensamentos que impedem o engajamento nessas atividades (componente cognitivo).
Essa integração foi aprofundada ao longo das décadas com a incorporação de estratégias de terceira onda, como mindfulness (atenção plena), técnicas de aceitação e compromisso, e abordagens baseadas em compaixão. Essas incorporações ampliaram o repertório da TCC sem abandonar seus princípios fundamentais: foco no presente, estrutura colaborativa, empirismo colaborativo e orientação para objetivos.
Principais Técnicas da TCC
Reestruturação Cognitiva
A reestruturação cognitiva é a técnica central da TCC e consiste em identificar, avaliar e modificar pensamentos automáticos disfuncionais. O processo utiliza o Registro de Pensamentos Disfuncionais (RPD), uma ferramenta estruturada onde o paciente documenta a situação, o pensamento automático associado, a emoção resultante, as evidências a favor e contra o pensamento, e uma resposta alternativa mais equilibrada.
Na prática clínica, o terapeuta utiliza o questionamento socrático — uma série de perguntas guiadas que levam o paciente a examinar criticamente suas próprias cognições. Em vez de simplesmente corrigir o pensamento do paciente, o terapeuta o conduz a descobrir por si mesmo as inconsistências e distorções em seu raciocínio. Perguntas como “Quais são as evidências de que esse pensamento é verdadeiro?” e “Existe outra forma de interpretar essa situação?” são exemplos clássicos dessa técnica.
Técnicas Comportamentais
As técnicas comportamentais da TCC incluem um conjunto diversificado de intervenções. A exposição gradual é utilizada no tratamento de fobias e transtornos de ansiedade: o paciente é exposto de forma progressiva à situação temida, começando por estímulos menos ansiogênicos e avançando para os mais intensos. A dessensibilização sistemática combina a exposição gradual com técnicas de relaxamento.
A ativação comportamental é particularmente eficaz em quadros depressivos. Consiste na programação deliberada de atividades que proporcionem senso de prazer ou de realização. Estudos publicados em periódicos como o Journal of Consulting and Clinical Psychology demonstram que a ativação comportamental isolada pode ser tão eficaz quanto a TCC completa no tratamento da depressão moderada a grave.
Outras técnicas comportamentais frequentemente utilizadas incluem o treinamento de habilidades sociais, a resolução de problemas estruturada, o treinamento de relaxamento progressivo de Jacobson e técnicas de respiração diafragmática. A escolha das técnicas depende da conceituação de caso, que é a formulação individualizada dos problemas do paciente à luz do modelo cognitivo.
Experimentos Comportamentais
Os experimentos comportamentais são intervenções planejadas em conjunto entre terapeuta e paciente para testar a validade de uma crença ou previsão específica. Diferente da exposição gradual, cujo objetivo primário é a habituação, os experimentos comportamentais têm como foco a mudança cognitiva. Por exemplo, um paciente com ansiedade social que acredita que “se eu expressar minha opinião em uma reunião, todos vão me julgar negativamente” pode planejar, junto com o terapeuta, uma situação controlada onde expressará uma opinião e observará as reações reais dos participantes.
Essa técnica é particularmente poderosa porque permite que o paciente confronte suas previsões negativas com dados empíricos reais, em vez de depender apenas da reflexão cognitiva em consultório. A evidência vivencial frequentemente produz mudanças mais duradouras do que o questionamento verbal isolado.
Psicoeducação
A psicoeducação é um componente transversal da TCC presente desde a primeira sessão. Consiste em fornecer ao paciente informações sobre o modelo cognitivo, sobre seu transtorno específico e sobre as técnicas que serão utilizadas no tratamento. A psicoeducação tem múltiplas funções: normaliza a experiência do paciente, aumenta a adesão ao tratamento, reduz o estigma associado ao transtorno mental e promove a autonomia do paciente como agente ativo de sua própria mudança.
No contexto brasileiro, a psicoeducação tem se mostrado particularmente relevante em programas de saúde mental comunitária, onde profissionais de psicologia utilizam materiais psicoeducativos para orientar familiares de pacientes com transtornos mentais graves sobre a natureza das condições e estratégias de manejo no ambiente doméstico.
Indicações Clínicas e Evidências de Eficácia
Transtornos de Ansiedade
A TCC é considerada tratamento de primeira linha para todos os transtornos de ansiedade classificados no DSM-5-TR e na CID-11. No Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), meta-análises publicadas em periódicos como o Cochrane Database of Systematic Reviews demonstram que a TCC produz reduções significativas nos sintomas de preocupação excessiva, com efeitos que se mantêm por pelo menos 12 meses após o término do tratamento.
No Transtorno de Pânico, protocolos de TCC que combinam psicoeducação sobre os sintomas somáticos da ansiedade, reestruturação cognitiva das interpretações catastróficas e exposição interoceptiva (provocação deliberada de sensações corporais temidas) apresentam taxas de remissão que variam de 70% a 90% em estudos controlados. Esses resultados são comparáveis ou superiores aos obtidos com farmacoterapia isolada, com a vantagem de menor taxa de recaída após a descontinuação do tratamento.
Para fobias específicas, a exposição gradual in vivo — técnica central da TCC para essas condições — apresenta eficácia robusta, com estudos demonstrando melhora significativa em protocolos de sessão única intensiva para fobias circunscritas. O Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) responde bem à técnica de Exposição e Prevenção de Resposta (EPR), com taxas de melhora de 60% a 80% quando o protocolo é seguido adequadamente.
Depressão
A eficácia da TCC no tratamento da depressão é uma das evidências mais consolidadas na literatura psicoterapêutica. Desde os estudos pioneiros de Beck na década de 1970, múltiplos ensaios clínicos randomizados demonstraram que a TCC é tão eficaz quanto a farmacoterapia com antidepressivos no tratamento de episódios depressivos leves a moderados. Para depressão grave, a combinação de TCC com medicação antidepressiva mostra resultados superiores a qualquer uma das intervenções isoladamente.
Um dado particularmente relevante para a prática clínica é que a TCC demonstra efeito protetor contra recaídas. Estudos de seguimento de até 6 anos mostram que pacientes tratados com TCC apresentam taxas de recaída significativamente menores do que aqueles tratados exclusivamente com medicação — especialmente após a descontinuação do fármaco. Esse efeito protetor está associado à aquisição de habilidades cognitivas e comportamentais que o paciente pode utilizar autonomamente quando enfrenta situações de vulnerabilidade.
| Transtorno | Nível de Evidência da TCC | Técnicas Principais | Duração Média do Tratamento |
|---|---|---|---|
| Transtorno de Ansiedade Generalizada | Forte (Nível A) | Reestruturação cognitiva, relaxamento | 12 a 20 sessões |
| Transtorno de Pânico | Forte (Nível A) | Exposição interoceptiva, reestruturação cognitiva | 12 a 15 sessões |
| Fobias Específicas | Forte (Nível A) | Exposição gradual in vivo | 5 a 12 sessões |
| TOC | Forte (Nível A) | Exposição e Prevenção de Resposta (EPR) | 16 a 20 sessões |
| Depressão (leve a moderada) | Forte (Nível A) | Reestruturação cognitiva, ativação comportamental | 16 a 20 sessões |
| Depressão (grave) | Forte (combinada com medicação) | TCC + farmacoterapia | 20 a 30 sessões |
| TEPT | Forte (Nível A) | Processamento cognitivo, exposição prolongada | 12 a 16 sessões |
| Transtornos Alimentares | Moderado a forte | Reestruturação de crenças sobre corpo, prevenção de recaída | 20 a 40 sessões |
| Insônia | Forte (Nível A) | Higiene do sono, restrição de sono, controle de estímulos | 6 a 8 sessões |
| Dor Crônica | Moderado | Manejo cognitivo da dor, ativação gradual | 8 a 12 sessões |
Outras Indicações
Além dos transtornos de ansiedade e depressão, a TCC possui evidências de eficácia para uma gama ampla de condições clínicas. No Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), a Terapia de Processamento Cognitivo e a Exposição Prolongada — ambas baseadas em princípios da TCC — são recomendadas como tratamentos de primeira linha pela American Psychological Association (APA) e pelo National Institute for Health and Care Excellence (NICE) do Reino Unido.
Para transtornos alimentares, especialmente a Bulimia Nervosa e o Transtorno de Compulsão Alimentar, a TCC adaptada (TCC-E, ou TCC enhanced) desenvolvida por Christopher Fairburn demonstra eficácia superior a outras modalidades de psicoterapia. Na insônia crônica, a TCC para Insônia (TCC-I) é reconhecida como tratamento de primeira linha, com resultados superiores à medicação hipnótica a longo prazo.
Outras aplicações com suporte empírico incluem o manejo de dor crônica, reabilitação cardíaca, cessação de tabagismo, manejo de diabetes e outras condições crônicas de saúde, transtornos de personalidade (especialmente o Transtorno de Personalidade Borderline, para o qual a Terapia do Esquema — uma variante da TCC — é amplamente utilizada), e problemas comportamentais na infância e adolescência.
A TCC na Prática Clínica Brasileira
Estrutura Típica do Tratamento
Na prática clínica brasileira, a TCC é geralmente conduzida em formato individual, com sessões semanais de 50 minutos. O tratamento típico para a maioria dos transtornos de ansiedade e depressão dura entre 12 e 20 sessões, embora condições mais complexas ou crônicas possam requerer acompanhamento mais prolongado. A estrutura de cada sessão segue um formato padronizado que inclui revisão do humor, revisão das tarefas de casa, definição da agenda, trabalho nos temas da agenda, definição de novas tarefas de casa e feedback final.
As tarefas de casa são um componente essencial e distintivo da TCC. Estudos demonstram que pacientes que realizam as tarefas de casa regularmente apresentam resultados significativamente melhores do que aqueles que não as realizam. As tarefas podem incluir o preenchimento de registros de pensamentos, a prática de técnicas de relaxamento, exercícios de exposição graduada ou a implementação de mudanças comportamentais específicas acordadas em sessão.
Formação do Psicólogo em TCC no Brasil
No Brasil, a formação em TCC ocorre predominantemente em cursos de pós-graduação lato sensu (especialização) com duração média de 18 a 24 meses. Instituições como o Centro de Terapia Cognitiva (CTC), o CETCC, o Instituto de Terapia Cognitiva (ITC) e diversas universidades públicas e privadas oferecem programas reconhecidos pelo MEC. A Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC) congrega profissionais e instituições formadoras no país.
Para atuar como psicoterapeuta utilizando a TCC, o profissional deve possuir registro ativo no Conselho Regional de Psicologia (CRP) de sua jurisdição. A Resolução CFP nº 04/2020 regulamenta a prestação de serviços psicológicos por meio de tecnologias da informação e comunicação, permitindo a prática da TCC online — modalidade que ganhou impulso significativo a partir de 2020 e se consolidou como alternativa viável ao atendimento presencial.
TCC no SUS e em Serviços Públicos
A TCC tem sido progressivamente incorporada aos serviços de saúde mental do SUS, especialmente nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e nas equipes de Atenção Primária à Saúde. Programas de TCC em grupo têm se mostrado uma estratégia eficaz para ampliar o acesso ao tratamento em contextos onde a demanda supera a oferta de profissionais. Estudos brasileiros publicados em periódicos como a Revista Brasileira de Terapias Cognitivas demonstram que a TCC em grupo para ansiedade e depressão mantém eficácia comparável à individual, com a vantagem de atender um número maior de pacientes simultaneamente.
O formato breve da TCC — com protocolos de 8 a 12 sessões — também tem sido adotado em serviços públicos como alternativa pragmática para lidar com filas de espera extensas. Embora o formato breve apresente algumas limitações para condições mais complexas, estudos demonstram que é suficiente para produzir melhora clínica significativa em quadros de ansiedade e depressão leves a moderados.
TCC e as Ondas da Terapia Comportamental-Cognitiva
Primeira e Segunda Ondas
A história das terapias comportamentais e cognitivas é frequentemente organizada em “ondas”. A primeira onda, surgida na década de 1950, focou exclusivamente no comportamento observável e utilizava técnicas derivadas do condicionamento clássico (Pavlov, Wolpe) e operante (Skinner). A segunda onda, inaugurada por Beck e Ellis na década de 1960, incorporou o componente cognitivo, reconhecendo que os pensamentos e interpretações do indivíduo desempenham papel central nos transtornos emocionais. Essa segunda onda corresponde à TCC tradicional, que permanece como referência na prática clínica contemporânea.
Terceira Onda e Desenvolvimentos Recentes
A partir da década de 1990, uma série de novas abordagens surgiu dentro do campo cognitivo-comportamental, constituindo o que se convencionou chamar de “terceira onda”. Essas abordagens incluem a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), a Terapia Comportamental Dialética (DBT), a Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness (MBCT), a Terapia do Esquema e a Terapia Focada na Compaixão (TFC). Embora cada uma tenha ênfases distintas, todas compartilham raízes na tradição cognitivo-comportamental e integram elementos como aceitação, atenção plena, valores pessoais e regulação emocional.
A MBCT, por exemplo, combina técnicas clássicas da TCC com práticas de meditação mindfulness para prevenir recaídas em depressão recorrente. Estudos publicados no Lancet demonstraram que a MBCT é tão eficaz quanto a medicação antidepressiva de manutenção na prevenção de novos episódios depressivos em pacientes com histórico de três ou mais episódios. A DBT, desenvolvida por Marsha Linehan, tornou-se o tratamento de referência para o Transtorno de Personalidade Borderline, com evidências robustas de redução de comportamentos autolesivos e tentativas de suicídio.
| Onda | Período | Foco Principal | Representantes | Técnicas Características |
|---|---|---|---|---|
| Primeira Onda | Décadas de 1950-1960 | Comportamento observável | Skinner, Wolpe, Eysenck | Dessensibilização sistemática, condicionamento operante |
| Segunda Onda | Décadas de 1960-1990 | Cognições e crenças | Beck, Ellis | Reestruturação cognitiva, RPD, experimentos comportamentais |
| Terceira Onda | Década de 1990 em diante | Aceitação, mindfulness, valores | Hayes, Linehan, Segal, Young | ACT, DBT, MBCT, Terapia do Esquema |
TCC Online e Novas Modalidades de Aplicação
Telepsicologia e TCC por Videoconferência
A TCC por videoconferência é uma modalidade que ganhou impulso a partir de 2020 e se consolidou como alternativa permanente ao atendimento presencial. No Brasil, a Resolução CFP nº 04/2020 regulamenta a prática de serviços psicológicos mediados por tecnologias da informação e comunicação, permitindo ao psicólogo registrado no CRP atender pacientes por videoconferência em plataformas certificadas.
Meta-análises publicadas em periódicos como o Journal of Anxiety Disorders demonstram que a TCC por videoconferência apresenta eficácia equivalente à presencial para transtornos de ansiedade e depressão. Essa equivalência se deve, em parte, ao fato de que os componentes essenciais da TCC — psicoeducação, reestruturação cognitiva, tarefas de casa e aliança terapêutica — são plenamente aplicáveis em formato remoto.
TCC Autoguiada e Aplicativos
Programas de TCC computadorizada e aplicativos baseados em princípios da TCC representam uma fronteira em expansão. Plataformas como o MoodGYM e o Beating the Blues, validados em estudos controlados, oferecem módulos de TCC autoguiada que podem funcionar como adjuvantes ao tratamento presencial ou como intervenção de baixa intensidade para casos leves. Embora não substituam o atendimento com um profissional qualificado, essas ferramentas ampliam o acesso a estratégias terapêuticas baseadas em evidências, especialmente em contextos de escassez de profissionais de saúde mental.
No Brasil, o desenvolvimento de aplicativos de saúde mental baseados em TCC ainda é incipiente em comparação com mercados como o norte-americano e o europeu, mas iniciativas acadêmicas e startups de saúde digital têm investido nessa área, adaptando conteúdos psicoeducativos e técnicas de automonitoramento ao contexto cultural brasileiro.
Como Escolher um Psicólogo Especialista em TCC
A escolha de um psicólogo especialista em TCC deve considerar critérios objetivos. O primeiro é verificar o registro ativo no CRP, que pode ser consultado no site do respectivo Conselho Regional. O segundo é verificar a formação específica em TCC — idealmente uma pós-graduação reconhecida pelo MEC com carga horária mínima de 360 horas. A filiação a entidades como a Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC) ou suas filiadas regionais é um indicador adicional de comprometimento com a abordagem.
Na primeira consulta, o psicólogo especialista em TCC geralmente realiza uma avaliação inicial estruturada, que inclui a coleta de história clínica, a identificação das queixas principais, a aplicação de instrumentos padronizados de avaliação (escalas de ansiedade, depressão ou outros sintomas) e a explicação do modelo cognitivo ao paciente. Essa sessão inicial é fundamental para estabelecer a aliança terapêutica e para que o paciente compreenda o funcionamento do tratamento.
O tempo médio de tratamento varia conforme a complexidade do quadro: de 12 a 20 sessões para transtornos de ansiedade e depressão não complicados, podendo se estender para 30 sessões ou mais em casos de comorbidades múltiplas, transtornos de personalidade ou condições crônicas. A frequência padrão é semanal, com possibilidade de espaçamento gradual à medida que o paciente adquire autonomia no uso das técnicas.
Perguntas Frequentes sobre Terapia Cognitivo-Comportamental
Qual a diferença entre TCC e outras abordagens psicoterapêuticas?
A principal diferença está na metodologia. A TCC é estruturada, focada no presente, orientada para objetivos específicos e utiliza técnicas com eficácia comprovada em estudos clínicos controlados. Enquanto abordagens como a Psicanálise focam na exploração do inconsciente e das experiências infantis, a TCC concentra-se na modificação de padrões de pensamento e comportamento disfuncionais que mantêm o sofrimento atual. Cada abordagem tem suas indicações e méritos, mas a TCC se destaca pela base de evidências científicas e pela duração tipicamente mais curta do tratamento.
A TCC funciona para crianças e adolescentes?
Sim. A TCC possui adaptações específicas e validadas para crianças e adolescentes. Em crianças, as técnicas são adaptadas com recursos lúdicos, visuais e metáforas adequadas ao nível de desenvolvimento cognitivo. Meta-análises demonstram eficácia da TCC infantil para transtornos de ansiedade, depressão, TDAH (como adjuvante à medicação) e problemas comportamentais. A participação dos pais no processo terapêutico potencializa os resultados, especialmente em crianças mais novas.
Quantas sessões de TCC são necessárias para ver resultados?
Os primeiros resultados podem ser percebidos entre a quarta e a oitava sessão, dependendo do transtorno e da gravidade do quadro. Estudos demonstram que a TCC produz ganhos clínicos significativos entre 10 e 20 sessões para a maioria dos transtornos de ansiedade e depressão. Condições mais complexas, como transtornos de personalidade ou comorbidades múltiplas, podem requerer acompanhamento mais prolongado. A frequência semanal é o padrão recomendado para maximizar os resultados.
É possível fazer TCC online?
Sim. No Brasil, a prática da psicoterapia online é regulamentada pela Resolução CFP nº 04/2020. Estudos controlados demonstram que a TCC por videoconferência apresenta eficácia equivalente ao formato presencial para a maioria dos transtornos de ansiedade e depressão. O atendimento online mantém todos os componentes essenciais da TCC, incluindo reestruturação cognitiva, técnicas comportamentais e tarefas de casa. O profissional deve estar registrado no CRP e utilizar plataformas que garantam sigilo e privacidade.
A TCC pode ser combinada com medicação?
Sim, e em muitos casos a combinação é recomendada. Para depressão moderada a grave, diretrizes internacionais recomendam a associação de TCC com farmacoterapia antidepressiva, pois a combinação tende a produzir resultados superiores a qualquer uma das intervenções isoladamente. Para transtornos de ansiedade, a TCC isolada pode ser suficiente em casos leves a moderados, mas a combinação com medicação é indicada em quadros mais graves ou quando a resposta à TCC isolada é insuficiente. A decisão sobre a necessidade de medicação deve ser tomada em conjunto com um médico psiquiatra.
O que é a conceituação de caso em TCC?
A conceituação de caso é a formulação individualizada dos problemas do paciente à luz do modelo cognitivo. Ela integra informações sobre a história de vida do paciente, eventos precipitantes, pensamentos automáticos predominantes, crenças intermediárias e nucleares, estratégias de enfrentamento e fatores de manutenção. A conceituação serve como mapa para o planejamento do tratamento, orientando a escolha das técnicas mais adequadas para cada caso. É um documento vivo, revisado e refinado ao longo do processo terapêutico à medida que novas informações emergem.
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