O que é Dermatite Atópica
A dermatite atópica (DA) é uma doença inflamatória crônica e recidivante da pele, caracterizada por prurido intenso e lesões eczematosas que variam conforme a faixa etária do paciente. Considerada a dermatose inflamatória mais comum na infância, a DA afeta entre 15% e 20% das crianças e entre 2% e 10% dos adultos em âmbito global, segundo dados da World Allergy Organization (WAO). No Brasil, estudos epidemiológicos indicam prevalência entre 7,1% e 12,5% entre adolescentes, com variações regionais significativas.
A dermatite atópica não é apenas uma condição cutânea: ela faz parte da chamada “marcha atópica”, uma progressão clínica que frequentemente inclui rinite alérgica e asma brônquica. Aproximadamente 50% a 80% das crianças com DA desenvolvem rinite alérgica ou asma ao longo da vida, o que posiciona a DA como um marcador precoce de predisposição atópica e reforça a necessidade de acompanhamento multidisciplinar desde o diagnóstico.
O impacto da DA vai além dos sintomas físicos. O prurido persistente compromete a qualidade do sono, a concentração escolar e profissional e as relações sociais. Estudos publicados no British Journal of Dermatology demonstram que o impacto na qualidade de vida de pacientes com DA moderada a grave é comparável ao de outras doenças crônicas como diabetes e doença cardíaca, reforçando a importância de um manejo clínico adequado e baseado nas melhores evidências disponíveis.
Fisiopatologia da Dermatite Atópica
Defeito de Barreira Cutânea
A fisiopatologia da DA envolve a interação complexa entre fatores genéticos, imunológicos e ambientais. O componente genético mais estudado é a mutação no gene da filagrina (FLG), proteína essencial para a formação da barreira cutânea. A filagrina é produzida nos queratinócitos do estrato granuloso e, ao ser degradada, gera aminoácidos que compõem o Fator de Hidratação Natural (NMF — Natural Moisturizing Factor) da pele. Mutações de perda de função no gene FLG estão presentes em 20% a 50% dos pacientes com DA nas populações europeias e estão associadas a formas mais graves, início mais precoce e maior risco de desenvolvimento de asma.
Além da filagrina, outras proteínas da barreira cutânea — como claudinas, loricrina e involucrina — podem estar reduzidas na pele de pacientes com DA, comprometendo a função de barreira mesmo na ausência de mutações no FLG. Essa barreira defeituosa permite a penetração de alérgenos ambientais (ácaros, pólen, epitélios animais), irritantes químicos e microrganismos, desencadeando e perpetuando a resposta inflamatória.
Desregulação Imunológica
A resposta imune na DA é predominantemente do tipo Th2, com produção aumentada de interleucinas IL-4, IL-13, IL-31 e IL-5. A IL-4 e a IL-13 são as citocinas centrais na patogênese da DA: elas suprimem a expressão de proteínas da barreira cutânea, estimulam a produção de IgE, recrutam eosinófilos e promovem a inflamação crônica. A IL-31, conhecida como “citocina do prurido”, é a principal mediadora da coceira característica da DA, atuando diretamente nos neurônios sensoriais cutâneos.
Na fase crônica da doença, há superposição de respostas Th1 e Th22, o que explica as diferenças clínicas entre as fases aguda (dominada por vesículas e exsudação) e crônica (dominada por liquenificação e espessamento da pele). Essa complexidade imunológica embasa o desenvolvimento de terapias biológicas direcionadas, que atuam bloqueando citocinas específicas envolvidas na cascata inflamatória.
Papel do Microbioma Cutâneo
O Staphylococcus aureus coloniza a pele de até 90% dos pacientes com DA, em comparação com apenas 5% a 10% da população saudável. Essa colonização não é um achado incidental: o S. aureus produz superantígenos e toxinas que amplificam a inflamação cutânea, agravam o prurido e comprometem ainda mais a barreira cutânea. Durante os surtos da doença, a diversidade do microbioma cutâneo diminui drasticamente, com predominância quase absoluta do S. aureus nas áreas de lesão. A restauração da diversidade microbiana está associada à melhora clínica, o que tem motivado pesquisas sobre o uso de probióticos tópicos e transplante de microbiota cutânea como estratégias terapêuticas complementares.
Diagnóstico da Dermatite Atópica
Critérios Diagnósticos
O diagnóstico da DA é fundamentalmente clínico. Não existe exame laboratorial específico para confirmar o diagnóstico. Os critérios mais utilizados na prática clínica são os de Hanifin e Rajka (1980), que exigem a presença de pelo menos 3 de 4 critérios maiores e 3 de 23 critérios menores, e os critérios simplificados do UK Working Party (Williams et al., 1994), que são mais práticos para uso em atenção primária e estudos epidemiológicos.
| Critérios de Hanifin e Rajka (Maiores) | Descrição |
|---|---|
| Prurido | Sintoma obrigatório e cardinal da DA |
| Morfologia e distribuição típicas | Eczema flexural em adultos; face e superfícies extensoras em lactentes |
| Dermatite crônica ou cronicamente recidivante | Curso com períodos de exacerbação e remissão |
| História pessoal ou familiar de atopia | DA, asma, rinite alérgica no paciente ou em parentes de 1º grau |
Apresentação Clínica por Faixa Etária
A DA apresenta padrões clínicos distintos conforme a idade do paciente. No lactente (0 a 2 anos), as lesões predominam na face (bochechas, fronte, queixo), couro cabeludo e superfícies extensoras dos membros. As lesões são tipicamente agudas, com eritema, pápulas, vesículas, exsudação e crostas. O prurido é intenso e pode ser inferido pela irritabilidade e dificuldade para dormir.
Na infância (2 a 12 anos), as lesões migram para as áreas flexurais clássicas: fossas antecubitais (dobra do cotovelo), fossas poplíteas (atrás do joelho), punhos e tornozelos. As lesões tornam-se mais subagudas e crônicas, com placas eritematosas, descamativas e com grau variável de liquenificação (espessamento da pele com acentuação dos sulcos). Escoriações por coçadura são frequentes e podem complicar com infecção secundária.
No adolescente e adulto, o padrão flexural persiste, mas as lesões podem também acometer mãos, pálpebras, pescoço e regiões periorbitárias. A liquenificação é mais proeminente, refletindo o caráter crônico da doença. Formas atípicas incluem eczema numular (placas discoides), prurigo nodular e eritrodermia (acometimento de mais de 90% da superfície corporal), que representam apresentações mais graves.
Diagnósticos Diferenciais
O diagnóstico diferencial da DA inclui dermatite de contato (irritativa ou alérgica), dermatite seborreica, psoríase, escabiose, tinea corporis e, em lactentes, dermatite seborreica infantil. Em adultos com início tardio de eczema, deve-se considerar também linfoma cutâneo de células T (micose fungoide), especialmente quando as lesões são refratárias ao tratamento convencional. A biópsia cutânea pode ser necessária em casos atípicos ou refratários para excluir diagnósticos alternativos.
Avaliação de Gravidade
Escalas e Escores Validados
A avaliação objetiva da gravidade da DA é essencial para a tomada de decisão terapêutica, especialmente para a indicação de terapias sistêmicas. Os instrumentos mais utilizados na prática clínica e em ensaios clínicos são o SCORAD (Scoring Atopic Dermatitis), o EASI (Eczema Area and Severity Index) e o IGA (Investigator’s Global Assessment).
| Instrumento | Componentes Avaliados | Classificação de Gravidade | Uso Principal |
|---|---|---|---|
| SCORAD | Extensão das lesões (regra dos 9), intensidade (eritema, edema, escoriações, liquenificação, exsudação, ressecamento) e sintomas subjetivos (prurido e perda de sono) | Leve: <25; Moderado: 25-50; Grave: >50 | Prática clínica e ensaios |
| EASI | Extensão e gravidade de 4 sinais (eritema, edema/pápulas, escoriações, liquenificação) em 4 regiões corporais | Leve: 1-7; Moderado: 7,1-21; Grave: 21,1-50; Muito grave: 50,1-72 | Ensaios clínicos (padrão-ouro) |
| IGA | Avaliação global pelo investigador em escala de 0 (limpo) a 4 (grave) | 0-1: controlado; 2: leve; 3: moderado; 4: grave | Desfecho primário em ensaios |
| DLQI | Impacto na qualidade de vida (10 questões) | 0-1: sem impacto; 2-5: leve; 6-10: moderado; 11-20: grande; 21-30: extremo | Avaliação complementar |
Tratamento da Dermatite Atópica
Cuidados Básicos com a Pele: Hidratação e Emolientes
A hidratação cutânea é o pilar fundamental do tratamento da DA, independentemente da gravidade. Emolientes devem ser aplicados diariamente, pelo menos duas vezes ao dia, em toda a superfície corporal — não apenas nas áreas com lesão. A aplicação deve ser feita imediatamente após o banho, com a pele ainda úmida, para maximizar a retenção de água no estrato córneo. Formulações em creme ou pomada (com maior teor lipídico) são preferíveis a loções, que contêm mais água e podem causar ressecamento paradoxal por evaporação.
Os emolientes atuam restaurando a barreira cutânea defeituosa, reduzindo a perda transepidérmica de água (TEWL — Transepidermal Water Loss), diminuindo o prurido e a frequência dos surtos. Estudos randomizados demonstram que o uso regular de emolientes reduz a necessidade de corticosteroides tópicos em até 50%, representando uma estratégia de economia de corticosteroides (corticosteroid-sparing) clinicamente relevante.
A escolha do emoliente deve considerar a tolerabilidade individual. Produtos sem fragrância, sem corantes e sem conservantes potencialmente irritantes (como formaldeído e metilisotiazolinona) são preferíveis. Emolientes que contêm ceramidas, ácidos graxos essenciais e colesterol mimetizam a composição lipídica do estrato córneo e podem oferecer benefício adicional na restauração da barreira cutânea, embora as evidências de superioridade sobre emolientes convencionais ainda sejam limitadas.
Tratamento Tópico Anti-inflamatório
Os corticosteroides tópicos (CT) permanecem como a primeira linha de tratamento anti-inflamatório da DA. São classificados em sete potências (I a VII nos Estados Unidos, com escala inversa na Europa), e a escolha da potência depende da gravidade das lesões, da localização anatômica e da idade do paciente. Para lesões leves em áreas sensíveis (face, dobras, genitais), utilizam-se CT de baixa potência (hidrocortisona 1%). Para lesões moderadas no tronco e membros, CT de média potência (mometasona, prednicarbato). Para lesões graves ou liquenificadas, CT de alta potência (betametasona, clobetasol) por períodos limitados.
O esquema de tratamento proativo — aplicação de CT de baixa a média potência duas vezes por semana nas áreas propensas a recidivas, mesmo na ausência de lesão ativa — demonstrou eficácia na redução de surtos em ensaios clínicos randomizados e é recomendado pelo consenso da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) para pacientes com DA moderada a grave com recidivas frequentes.
Os inibidores de calcineurina tópicos — tacrolimo (pomada 0,03% e 0,1%) e pimecrolimo (creme 1%) — constituem alternativa aos corticosteroides para áreas sensíveis e para uso prolongado, pois não causam atrofia cutânea. O tacrolimo 0,1% possui eficácia anti-inflamatória comparável a corticosteroides de média potência. O crisaborole (inibidor tópico de PDE4) é outra opção não esteroidal aprovada para DA leve a moderada em pacientes a partir de 2 anos, com perfil de segurança favorável para uso prolongado.
Fototerapia
A fototerapia com UVB de banda estreita (NB-UVB, 311-313 nm) é uma opção terapêutica de segunda linha para DA moderada a grave que não responde adequadamente ao tratamento tópico otimizado. O tratamento é realizado em cabines de fototerapia, com frequência de 2 a 3 sessões por semana, durante 8 a 12 semanas. A fototerapia atua pela imunossupressão local, indução de apoptose de linfócitos T e espessamento do estrato córneo. O consenso da SBD posiciona a fototerapia como etapa intermediária entre o tratamento tópico e a terapia sistêmica.
Terapia Sistêmica Convencional
Para pacientes com DA moderada a grave refratária ao tratamento tópico e/ou fototerapia, a terapia sistêmica é indicada. Os imunossupressores convencionais utilizados incluem ciclosporina, metotrexato, azatioprina e micofenolato de mofetila. A ciclosporina é o agente com maior evidência de eficácia e rapidez de ação, sendo o único imunossupressor convencional com indicação formal em bula para DA no Brasil. Contudo, seu uso é limitado a períodos curtos (3 a 6 meses, máximo 1 a 2 anos) devido a efeitos adversos como nefrotoxicidade e hipertensão arterial.
Os corticosteroides sistêmicos (prednisona, prednisolona) devem ser evitados ou utilizados apenas em cursos curtos para controle de surtos graves, devido ao risco de efeito rebote à descontinuação e aos efeitos adversos crônicos conhecidos (osteoporose, diabetes, supressão adrenal, ganho ponderal).
Terapias Biológicas e Inovadoras
O advento dos imunobiológicos revolucionou o tratamento da DA moderada a grave. O dupilumabe é um anticorpo monoclonal que bloqueia os receptores de IL-4 e IL-13, as citocinas centrais na patogênese da DA. Aprovado no Brasil pela ANVISA para pacientes a partir de 6 meses de idade com DA moderada a grave inadequadamente controlada, o dupilumabe demonstrou eficácia robusta em ensaios clínicos de fase III (estudos SOLO 1, SOLO 2, CHRONOS), com redução de 75% no EASI (EASI-75) em 44% a 51% dos pacientes na semana 16. O perfil de segurança é favorável, com conjuntivite como o efeito adverso mais frequentemente reportado.
O tralokinumabe é outro biológico anti-IL-13 aprovado para DA moderada a grave em adultos, com mecanismo complementar ao dupilumabe. Os inibidores de Janus quinase (JAK) — baricitinibe, upadacitinibe e abrocitinibe — representam uma nova classe terapêutica oral para DA moderada a grave. São moléculas pequenas que atuam intracelularmente bloqueando a sinalização de múltiplas citocinas. Apresentam início de ação rápido (melhora do prurido em 24 a 48 horas) e eficácia elevada, porém exigem monitoramento laboratorial regular e atenção a riscos específicos (infecções, eventos tromboembólicos, alterações laboratoriais).
| Terapia | Mecanismo | Via | Indicação (ANVISA) | Monitoramento Principal |
|---|---|---|---|---|
| Dupilumabe | Anti-IL-4Rα (bloqueia IL-4 e IL-13) | Subcutânea (a cada 2 semanas) | DA moderada a grave ≥ 6 meses | Eosinófilos, avaliação oftalmológica |
| Tralokinumabe | Anti-IL-13 | Subcutânea (a cada 2 semanas) | DA moderada a grave em adultos | Eosinófilos, infecções |
| Baricitinibe | Inibidor JAK1/JAK2 | Oral (diário) | DA moderada a grave em adultos | Hemograma, lipídeos, função hepática e renal |
| Upadacitinibe | Inibidor JAK1 seletivo | Oral (diário) | DA moderada a grave ≥ 12 anos | Hemograma, lipídeos, função hepática, CPK |
| Abrocitinibe | Inibidor JAK1 seletivo | Oral (diário) | DA moderada a grave em adultos | Hemograma, plaquetas, lipídeos, função hepática |
| Ciclosporina | Inibidor de calcineurina | Oral (diário) | DA grave refratária | Pressão arterial, função renal, magnésio |
Manejo Específico por Faixa Etária
Lactentes e Crianças Pequenas
O manejo da DA em lactentes exige atenção especial à segurança dos agentes tópicos. Corticosteroides de baixa potência (hidrocortisona 1%) são a primeira linha para lesões ativas na face e dobras. O pimecrolimo (a partir de 2 anos) e o tacrolimo 0,03% (a partir de 2 anos) são alternativas para áreas sensíveis. O banho deve ser rápido (5 a 10 minutos), com água morna (não quente), e com uso de sabonetes suaves ou syndets (detergentes sintéticos sem sabão). A hidratação deve ser abundante e imediata após o banho.
A avaliação de alergias alimentares é indicada em lactentes com DA moderada a grave que não respondem ao tratamento adequado ou que apresentam história de reações imediatas a alimentos. Os alimentos mais frequentemente implicados em crianças com DA são leite de vaca, ovo, trigo, soja e amendoim. Contudo, dietas de exclusão empíricas não são recomendadas sem confirmação diagnóstica (testes cutâneos, IgE específica e/ou teste de provocação oral), pois podem comprometer o estado nutricional e induzir restrições desnecessárias.
Adolescentes e Adultos
No adolescente e adulto, o manejo inclui todas as estratégias descritas, com maior tolerância ao uso de corticosteroides de maior potência em áreas não sensíveis. A terapia sistêmica é indicada quando o tratamento tópico otimizado e/ou a fototerapia são insuficientes para controlar os sintomas. A escolha entre ciclosporina, metotrexato, biológicos ou inibidores de JAK depende da gravidade, das comorbidades, da preferência do paciente e da acessibilidade ao medicamento.
O aspecto psicossocial merece atenção especial nessa faixa etária. Adolescentes com DA frequentemente relatam prejuízo na autoestima, evitação social e sintomas ansiosos ou depressivos relacionados à visibilidade das lesões. O encaminhamento para acompanhamento psicológico — incluindo abordagens como a Terapia Cognitivo-Comportamental — pode ser benéfico como parte do manejo integral do paciente, especialmente quando o impacto emocional é significativo.
Fatores Desencadeantes e Medidas de Controle
Principais Fatores Desencadeantes
A identificação e o controle dos fatores desencadeantes são componentes essenciais do manejo da DA. Os principais fatores incluem aeroalérgenos (ácaros da poeira doméstica, epitélios de animais, pólens, fungos), irritantes químicos (sabões, detergentes, solventes, fragrâncias), mudanças climáticas (baixa umidade, temperaturas extremas), tecidos ásperos (lã, fibras sintéticas), estresse emocional e infecções cutâneas (especialmente por S. aureus e herpes simples).
As medidas de controle ambiental incluem o uso de capas impermeáveis para colchões e travesseiros, lavagem frequente de roupas de cama com água quente, uso de aspirador com filtro HEPA, preferência por roupas de algodão, uso de sabões e detergentes neutros sem fragrância, manutenção da umidade ambiental entre 40% e 60% e controle de temperatura. Embora essas medidas façam parte das recomendações de consenso, é importante reconhecer que as evidências de sua eficácia isolada são modestas — o benefício é mais consistente quando combinado com o tratamento farmacológico adequado.
Infecções Secundárias
A infecção bacteriana secundária por S. aureus é a complicação mais frequente da DA. Clinicamente, manifesta-se por exsudação purulenta, crostas melicéricas (amarelo-douradas), pústulas e agravamento súbito do eczema. O tratamento inclui antibioticoterapia tópica (mupirocina ou ácido fusídico) para infecções localizadas e antibioticoterapia sistêmica (cefalosporinas de primeira geração ou amoxicilina-clavulanato) para infecções extensas ou com sinais sistêmicos.
O eczema herpético (erupção variceliforme de Kaposi) é uma complicação potencialmente grave causada pela disseminação do herpes simples na pele eczematosa. Caracteriza-se por vesículas agrupadas, pústulas, erosões com aspecto de “saca-bocado” e pode ser acompanhado de febre e mal-estar. É uma emergência dermatológica que requer tratamento com aciclovir sistêmico e, em casos graves, internação hospitalar.
Perspectivas Futuras no Tratamento da DA
O pipeline de pesquisa em DA inclui diversas moléculas em desenvolvimento clínico. Anticorpos monoclonais anti-IL-31 (nemolizumabe), anti-IL-33 (itepekimabe), anti-TSLP (tezepelumabe) e anti-OX40 estão em fases avançadas de investigação, com resultados promissores em ensaios de fase II e III. No campo dos inibidores de JAK tópicos, o ruxolitinibe (creme) foi aprovado em alguns mercados para DA leve a moderada em adultos e adolescentes, representando uma alternativa não esteroidal com mecanismo inovador para uso tópico.
Outras linhas de pesquisa incluem o transplante de microbiota cutânea (aplicação tópica de Roseomonas mucosa ou outras bactérias comensais para restaurar a diversidade microbiana), terapias com células T regulatórias, e abordagens de medicina de precisão baseadas em endotipos imunológicos que permitam a seleção individualizada da terapia mais adequada para cada paciente.
Perguntas Frequentes sobre Dermatite Atópica
Dermatite atópica tem cura?
A dermatite atópica não tem cura, mas pode ser controlada de forma eficaz com tratamento adequado. A maioria das crianças com DA apresenta melhora significativa ou remissão espontânea até a puberdade — estima-se que 60% a 70% dos casos infantis entrem em remissão até os 12 anos. Contudo, uma parcela de pacientes mantém a doença ativa na vida adulta. O objetivo do tratamento é controlar os sintomas, prevenir surtos, preservar a integridade da barreira cutânea e minimizar o impacto na qualidade de vida.
Dermatite atópica é contagiosa?
Não. A dermatite atópica não é contagiosa e não é transmitida por contato direto. A DA é uma condição inflamatória crônica com base genética e imunológica. Embora infecções secundárias (por bactérias ou vírus) possam ocorrer nas lesões, a doença de base não é infecciosa. Esse esclarecimento é importante porque o estigma social associado às lesões visíveis pode levar a crenças equivocadas sobre transmissibilidade.
Qual a diferença entre dermatite atópica e dermatite de contato?
A dermatite atópica é uma condição crônica, geneticamente determinada, que faz parte da marcha atópica (associação com rinite alérgica e asma). A dermatite de contato é uma reação inflamatória localizada desencadeada pelo contato direto com uma substância irritante (dermatite de contato irritativa) ou alergenizante (dermatite de contato alérgica). A distribuição das lesões, a história clínica e, quando necessário, o teste de contato (patch test) permitem a diferenciação entre as duas condições. Ambas podem coexistir no mesmo paciente.
Emolientes são suficientes para tratar dermatite atópica?
Emolientes são a base do tratamento e devem ser usados diariamente por todos os pacientes com DA, independentemente da gravidade. Em formas leves, a hidratação adequada pode ser suficiente para controlar os sintomas. Contudo, em formas moderadas a graves ou durante surtos ativos, o uso de anti-inflamatórios tópicos (corticosteroides ou inibidores de calcineurina) é necessário para controlar a inflamação. Emolientes não são substitutos dos anti-inflamatórios, mas reduzem significativamente a necessidade de seu uso quando aplicados regularmente.
Quando é indicada terapia biológica para dermatite atópica?
A terapia biológica (dupilumabe, tralokinumabe) ou os inibidores de JAK (baricitinibe, upadacitinibe, abrocitinibe) são indicados para pacientes com DA moderada a grave que não obtiveram controle adequado com tratamento tópico otimizado e/ou terapia sistêmica convencional. A decisão deve ser individualizada, considerando a gravidade (avaliada por escores como EASI e SCORAD), o impacto na qualidade de vida (DLQI), as comorbidades, a idade do paciente e a acessibilidade ao medicamento. O acompanhamento regular com dermatologista é essencial durante o uso dessas terapias.
A alimentação influencia a dermatite atópica?
A relação entre alimentação e DA é complexa e individualizada. Em lactentes e crianças pequenas com DA moderada a grave refratária, alergias alimentares podem ser um fator agravante em até 30% dos casos, sendo os alimentos mais implicados o leite de vaca, ovo, trigo, soja e amendoim. Contudo, dietas de restrição empíricas sem confirmação diagnóstica não são recomendadas, pois podem comprometer o estado nutricional sem benefício comprovado. A investigação deve ser feita com testes específicos (prick test, IgE sérica, teste de provocação oral) sob orientação médica, e a dieta de exclusão só deve ser mantida quando houver confirmação de alergia alimentar como fator desencadeante documentado.
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