Cirurgia Refrativa: Definição, Princípios Ópticos e Evolução das Técnicas
Cirurgia refrativa é o conjunto de procedimentos oftalmológicos que utilizam laser ou implantes intraoculares para corrigir erros de refração — miopia, hipermetropia e astigmatismo — com o objetivo de reduzir ou eliminar a dependência de óculos e lentes de contato. O princípio fundamental das técnicas a laser consiste na remodelação da curvatura corneana por ablação controlada do estroma, alterando o poder dióptrico da córnea para que a luz seja corretamente focalizada na retina.
A primeira cirurgia refrativa moderna com laser excimer foi realizada em 1987, e desde então mais de 40 milhões de procedimentos foram realizados globalmente. O Brasil é um dos países com maior volume anual de cirurgias refrativas. As técnicas evoluíram de procedimentos de superfície (PRK, 1988) para técnicas lamelares com flap corneano (LASIK, 1990) e, mais recentemente, para extração lenticular por pequena incisão (SMILE, 2011), além das lentes intraoculares fácicas (ICL) para casos em que o laser corneano não é indicado.
A escolha da técnica apropriada depende de uma avaliação pré-operatória rigorosa que inclui topografia e tomografia corneana, paquimetria ultrassônica, aberrometria ocular, avaliação da produção lacrimal, biomicroscopia e medida da pressão intraocular. Cada técnica possui indicações específicas baseadas em critérios objetivos como espessura corneana, grau refrativo, diâmetro pupilar e anatomia da câmara anterior.
Critérios Gerais de Elegibilidade para Cirurgia Refrativa
Independentemente da técnica escolhida, todos os candidatos a cirurgia refrativa devem atender a critérios básicos de elegibilidade que garantem segurança e previsibilidade de resultados. Esses critérios são estabelecidos por consensos do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), da American Academy of Ophthalmology (AAO) e da European Society of Cataract and Refractive Surgeons (ESCRS).
| Critério | Requisito | Justificativa |
|---|---|---|
| Idade mínima | ≥ 18 anos (ideal ≥ 21) | Maturidade ocular e estabilidade refrativa |
| Estabilidade refrativa | Variação ≤ 0,50 D em 12 meses | Prevenir regressão pós-operatória |
| Gravidez/amamentação | Contraindicação temporária | Alterações hormonais afetam refração e córnea |
| Ceratocone/ectasia | Contraindicação absoluta para laser | Risco de progressão da ectasia |
| Olho seco grave | Contraindicação relativa (controlar antes) | Risco de piora pós-operatória |
| Doenças autoimunes ativas | Contraindicação relativa | Comprometimento da cicatrização |
| Herpes ocular prévio | Contraindicação relativa | Risco de reativação viral |
| Diabetes descompensado | Contraindicação relativa | Comprometimento da cicatrização corneana |
PRK — Ceratectomia Fotorrefrativa
A PRK (Photorefractive Keratectomy) foi a primeira técnica de cirurgia refrativa a laser aprovada para uso clínico, introduzida em 1988. O procedimento consiste na remoção mecânica ou química do epitélio corneano, expondo o estroma anterior, sobre o qual o laser excimer (comprimento de onda de 193 nm) realiza a ablação controlada do tecido para remodelar a curvatura da córnea.
Mecanismo e Procedimento
Após instilação de colírio anestésico, o cirurgião remove o epitélio corneano — a camada mais superficial da córnea, com espessura de aproximadamente 50 micrômetros — utilizando espátula, álcool diluído ou escova motorizada. O laser excimer então ablaciona o estroma anterior com precisão micrométrica, removendo cerca de 12-15 micrômetros de tecido por dioptria corrigida. O procedimento completo dura entre 10 e 15 minutos por olho. Ao final, uma lente de contato terapêutica é colocada para proteger a superfície corneana durante a reepitelização, que ocorre em 3 a 5 dias.
Indicações e Limites
A PRK é particularmente indicada para pacientes com córneas finas (paquimetria abaixo de 500 micrômetros), onde a criação do flap do LASIK comprometeria a espessura residual mínima de segurança. É a técnica preferida para pacientes que praticam esportes de contato (artes marciais, rugby, boxe) ou exercem profissões com risco de trauma ocular (militares, bombeiros, policiais), pois não cria flap e, portanto, elimina o risco de deslocamento traumático. A PRK também é indicada quando a topografia pré-operatória mostra irregularidades ou suspeitas que contraindiquem a criação de flap.
Os limites de correção na PRK são geralmente inferiores aos do LASIK: até -6,00 a -8,00 dioptrias de miopia, até +3,00 dioptrias de hipermetropia e até -4,00 dioptrias de astigmatismo, embora esses limites variem conforme a espessura corneana individual e a zona óptica programada.
Recuperação e Resultados
A recuperação visual após PRK é mais lenta do que no LASIK. O desconforto pós-operatório é maior nos primeiros 2-3 dias, durante a reepitelização, com sensação de corpo estranho, lacrimejamento e fotofobia. A estabilização visual ocorre tipicamente entre 1 e 3 meses, com resultado visual final equivalente ao LASIK em olhos adequados. A principal complicação específica da PRK é o haze corneano — opacidade subepitelial transitória que pode afetar a qualidade visual nos primeiros meses e que é prevenida com uso de mitomicina C intraoperatória em baixa concentração.
LASIK — Ceratomileusis In Situ Assistida por Laser
O LASIK (Laser-Assisted In Situ Keratomileusis) é a técnica de cirurgia refrativa mais realizada mundialmente, representando a evolução do conceito de ceratomileusis descrito por José Barraquer na década de 1960. O procedimento combina a criação de um flap corneano lamelar com a ablação a laser do estroma subjacente.
Mecanismo e Procedimento
O cirurgião cria um flap corneano de aproximadamente 100-120 micrômetros de espessura, utilizando microcerátomo mecânico (LASIK convencional) ou laser de femtossegundo (femto-LASIK). O flap é levantado como uma tampa articulada, expondo o estroma corneano. O laser excimer realiza a ablação programada no leito estromal, e o flap é reposicionado sobre o estroma sem necessidade de suturas, aderindo por mecanismos de coesão tecidual. O procedimento completo dura menos de 10 minutos por olho.
O femto-LASIK, que utiliza laser de femtossegundo para criação do flap, oferece maior precisão na espessura e no diâmetro do flap, com bordas mais regulares e menor risco de complicações relacionadas ao corte, em comparação com o microcerátomo mecânico. Sistemas modernos incorporam eye-tracker (rastreamento ocular) que acompanha automaticamente os movimentos do olho durante a ablação, garantindo centralização precisa.
Indicações e Limites
O LASIK corrige miopia de até -10,00 a -12,00 dioptrias, hipermetropia de até +4,00 a +6,00 dioptrias e astigmatismo de até -5,00 a -6,00 dioptrias, dependendo da espessura corneana disponível. A exigência de espessura corneana é maior do que na PRK, pois além da ablação estromal, é necessário considerar a espessura do flap. O leito estromal residual — definido como a espessura da córnea abaixo do flap após a ablação — deve ser de no mínimo 280-300 micrômetros para minimizar o risco de ectasia pós-operatória. A paquimetria pré-operatória mínima recomendada é de 490-500 micrômetros.
| Parâmetro | Valor de Referência | Significado Clínico |
|---|---|---|
| Paquimetria mínima | 490-500 μm | Espessura total da córnea antes da cirurgia |
| Espessura do flap | 100-120 μm | Camada corneana levantada durante o procedimento |
| Leito estromal residual | ≥ 280-300 μm | Espessura remanescente após flap + ablação |
| Ablação por dioptria | ~12-15 μm/D | Tecido removido para cada dioptria corrigida |
| Zona óptica | 6,0-6,5 mm | Diâmetro da área de correção — maior = melhor visão noturna |
Vantagens e Riscos
A principal vantagem do LASIK é a recuperação visual rápida: a maioria dos pacientes retorna às atividades normais em 24 a 48 horas, com desconforto pós-operatório mínimo. As taxas de satisfação do paciente excedem 95% na literatura publicada. O olho seco pós-operatório é a queixa mais comum, afetando até 50% dos pacientes nos primeiros meses, mas geralmente resolve em 3 a 6 meses com lubrificação adequada.
Os riscos específicos do LASIK estão relacionados ao flap: deslocamento traumático (raro, mas possível mesmo anos após a cirurgia), crescimento epitelial na interface, dobras do flap e difuse lamellar keratitis (DLK). A complicação mais temida é a ectasia pós-LASIK — afinamento e protrusão corneana progressivos — cuja incidência é estimada em 0,04-0,6% e está associada a leito estromal residual insuficiente, topografia pré-operatória suspeita ou ceratocone subclínico não detectado.
SMILE — Extração Lenticular por Pequena Incisão
O SMILE (Small Incision Lenticule Extraction) é a técnica mais recente de cirurgia refrativa corneana, aprovada para uso clínico em 2011 pela Zeiss (plataforma VisuMax). Diferentemente do LASIK e da PRK, que utilizam laser excimer para ablação tecidual, o SMILE emprega exclusivamente laser de femtossegundo para criar e extrair uma lentícula intrastromal — um disco de tecido corneano com formato e espessura precisos — através de uma incisão de apenas 2-4 milímetros.
Mecanismo e Procedimento
O laser de femtossegundo cria dois planos de clivagem dentro do estroma corneano: um plano posterior e um plano anterior, definindo a lentícula cujo formato e espessura correspondem à correção refrativa desejada. Uma pequena incisão na periferia da córnea permite ao cirurgião dissecar e extrair a lentícula com pinça. Não há criação de flap, não há remoção de epitélio e não há laser excimer. A remoção da lentícula altera a curvatura corneana e, consequentemente, o poder refrativo.
Indicações e Limites
O SMILE foi inicialmente aprovado apenas para correção de miopia (até -10,00 D) e astigmatismo miópico (até -5,00 D). A correção de hipermetropia pelo SMILE (SMILE pro) é uma evolução mais recente, com aprovação regulatória progressiva. A técnica é particularmente indicada para pacientes com miopia moderada a alta que apresentam olho seco preexistente, pois a preservação das fibras nervosas corneanas superficiais — que são seccionadas no flap do LASIK — resulta em menor incidência de olho seco pós-operatório.
Vantagens Biomecânicas
A ausência de flap confere ao SMILE vantagens biomecânicas significativas: maior resistência corneana pós-operatória, menor risco de ectasia e menor risco de complicações traumáticas. Estudos comparativos demonstram que o SMILE preserva aproximadamente 25% mais fibras nervosas corneanas do que o LASIK, resultando em recuperação mais rápida da sensibilidade corneana e menor incidência de olho seco. A recuperação visual é intermediária entre o LASIK (mais rápido) e a PRK (mais lento), com estabilização tipicamente em 1 a 4 semanas.
Lentes Intraoculares Fácicas (ICL): Indicações para Alta Ametropia
As lentes intraoculares fácicas são dispositivos implantáveis que corrigem erros refrativos sem ablação corneana e sem remoção do cristalino natural. A ICL (Implantable Collamer Lens), fabricada pela STAAR Surgical, é a lente fácica de câmara posterior mais utilizada mundialmente. É posicionada entre a íris e o cristalino, no sulco ciliar, e fabricada em Collamer — material biocompatível composto por colágeno e copolímero HEMA.
Indicações
A ICL é indicada para pacientes que não são candidatos ideais para cirurgia a laser corneano, particularmente em casos de miopia alta (acima de -8,00 D), córneas finas (paquimetria insuficiente para LASIK ou PRK), ceratocone estável (onde a ablação corneana é contraindicada) e graus refrativos que excedem os limites de correção do laser. A ICL pode corrigir miopia de até -18,00 D, hipermetropia de até +10,00 D e astigmatismo de até -6,00 D (modelo tórico). O CFM, em parecer de 2018, restringiu a indicação das lentes fácicas de câmara posterior no Brasil a pacientes com miopia alta e astigmatismo miópico.
Requisitos Anatômicos
A implantação da ICL requer avaliação anatômica específica que vai além dos critérios da cirurgia a laser. A profundidade da câmara anterior deve ser adequada (recomendação do fabricante: ≥ 3,0 mm, embora estudos multicêntricos tenham demonstrado segurança em câmaras de até 2,8 mm com resultados satisfatórios de segurança e eficácia). A contagem de células endoteliais corneanas deve ser adequada para a faixa etária, pois a proximidade da lente com o endotélio pode causar perda celular acelerada em casos de dimensionamento inadequado.
Evolução Tecnológica: ICL com Orifício Central
O modelo ICL V4c, com orifício central de 360 micrômetros (tecnologia KS AquaPORT), representou avanço significativo ao permitir a circulação natural do humor aquoso sem necessidade de iridotomia periférica prévia — procedimento que era obrigatório nos modelos anteriores para prevenir bloqueio pupilar e glaucoma agudo. Meta-análises demonstram que a ICL V4c é segura e eficaz no tratamento da miopia moderada a alta, sem diferença estatisticamente significativa em acuidade visual, equivalente esférico ou pressão intraocular em comparação com modelos sem orifício central, e sem complicações que ameaçassem a visão.
| Técnica | Mecanismo | Miopia Máxima | Hipermetropia Máxima | Astigmatismo Máximo | Paquimetria Mínima | Recuperação Visual |
|---|---|---|---|---|---|---|
| PRK | Ablação de superfície | -6 a -8 D | +3 D | -4 D | Sem mínimo fixo (leito residual ≥ 350 μm) | 1-3 meses |
| LASIK | Flap + ablação estromal | -10 a -12 D | +4 a +6 D | -5 a -6 D | 490-500 μm | 24-48 horas |
| SMILE | Extração de lentícula | -10 D | Em aprovação | -5 D | Variável (sem flap) | 1-4 semanas |
| ICL | Lente fácica implantável | -18 D | +10 D | -6 D (tórica) | Não aplicável | 24-48 horas |
Exames Pré-Operatórios: Protocolo de Avaliação
A avaliação pré-operatória é a etapa mais crítica do processo cirúrgico e determina não apenas a elegibilidade do paciente, mas a escolha da técnica mais segura e eficaz para cada caso. Um protocolo pré-operatório completo inclui os seguintes exames:
Topografia e Tomografia Corneana
A topografia corneana mapeia a curvatura da superfície anterior da córnea, enquanto a tomografia (Pentacam, Galilei) avalia ambas as superfícies (anterior e posterior) e a espessura corneana em múltiplos pontos. A análise tomográfica é essencial para detecção de ceratocone subclínico e ectasias incipientes que contraindicam a cirurgia a laser. Índices como o D-value do Belin/Ambrósio Enhanced Ectasia Display são utilizados para estratificação de risco de ectasia pós-operatória.
Paquimetria
A paquimetria ultrassônica mede a espessura corneana central com precisão de ± 5 micrômetros. A espessura corneana normal varia entre 520 e 560 micrômetros. Valores abaixo de 500 micrômetros são considerados limítrofes para LASIK e direcionam a indicação para PRK, SMILE ou ICL, dependendo do grau a corrigir e dos demais parâmetros clínicos.
Aberrometria
A aberrometria ocular quantifica as aberrações ópticas de alta ordem (coma, trefoil, aberração esférica) que afetam a qualidade visual além da refração esférico-cilíndrica convencional. Em pacientes com pupilas grandes (> 7 mm em condições escotópicas), aberrações de alta ordem pré-existentes podem ser exacerbadas pela cirurgia, resultando em halos, glare e dificuldade de visão noturna. A aberrometria guia tratamentos customizados (wavefront-guided) que compensam essas aberrações.
Avaliação da Superfície Ocular
O teste de Schirmer I e o tempo de ruptura do filme lacrimal (BUT) avaliam a produção e a estabilidade da lágrima. O olho seco pré-existente deve ser tratado antes da cirurgia refrativa, pois todas as técnicas — especialmente LASIK — podem agravar a condição. A meibografia avalia a integridade das glândulas de meibômio, cuja disfunção é a principal causa de olho seco evaporativo.
Complicações e Manejo Pós-Operatório
Embora as cirurgias refrativas modernas apresentem taxas de segurança superiores a 95%, complicações podem ocorrer e devem ser reconhecidas e tratadas precocemente. O manejo pós-operatório adequado é fundamental para otimizar os resultados e minimizar riscos.
Olho Seco Pós-Operatório
O olho seco é a complicação mais prevalente após cirurgia refrativa a laser, afetando entre 30% e 50% dos pacientes nos primeiros meses. O LASIK causa maior incidência de olho seco do que o SMILE e a PRK, devido à secção das fibras nervosas corneanas durante a criação do flap. O manejo inclui lubrificação com lágrimas artificiais sem conservantes, plugs punctais em casos refratários e, eventualmente, colírios de ciclosporina para inflamação crônica da superfície ocular.
Ectasia Corneana Pós-Operatória
A ectasia pós-cirurgia refrativa é a complicação mais temida, embora rara (incidência estimada de 0,04-0,6%). Caracteriza-se pelo afinamento e protrusão progressivos da córnea, resultando em astigmatismo irregular e perda de acuidade visual. Os principais fatores de risco incluem leito estromal residual insuficiente, topografia pré-operatória com padrões suspeitos, ceratocone subclínico não detectado e correção de altos graus de miopia. O crosslinking corneano (CXL) é o tratamento padrão para estabilização da ectasia, podendo ser combinado com implante de anel intrastromal para regularização da curvatura.
Regressão Refrativa
A regressão parcial da correção pode ocorrer nos primeiros 6 a 12 meses após a cirurgia, particularmente em correções de altos graus de miopia. A taxa de retoque (enhancement) varia entre 2% e 10% conforme a técnica e o grau corrigido. No LASIK, o retoque pode ser realizado por relevantamento do flap original; na PRK, por nova ablação de superfície; e no SMILE, por PRK complementar (CIRCLE) ou relevantamento com lentícula complementar.
Crosslinking Profilático Combinado com Cirurgia Refrativa
O crosslinking corneano (CXL) é um procedimento que fortalece a estrutura biomecânica da córnea por meio da criação de ligações covalentes entre as fibras de colágeno estromal, utilizando riboflavina (vitamina B2) como fotossensibilizador e radiação ultravioleta A (UVA, 370 nm) como ativador. Originalmente desenvolvido para tratamento do ceratocone, o crosslinking tem sido cada vez mais empregado como procedimento profilático associado à cirurgia refrativa — particularmente à PRK — em pacientes com fatores de risco para ectasia pós-operatória.
A combinação PRK + CXL, denominada Athens Protocol quando associada à ablação customizada guiada por topografia, é indicada para pacientes com córneas limítrofes — topografia com padrões suspeitos mas sem ceratocone estabelecido, espessura corneana no limite inferior da normalidade ou histórico familiar de ceratocone. O CXL profilático é realizado imediatamente após a ablação do PRK, aproveitando a remoção epitelial já realizada, sem adicionar tempo cirúrgico significativo.
Estudos com acompanhamento de até 10 anos demonstram que a combinação PRK + CXL oferece estabilidade refrativa superior ao PRK isolado em pacientes com topografia borderline, sem aumento significativo de complicações. O CXL fortalece a córnea adelgaçada pela ablação, reduzindo o risco de ectasia progressiva que é a principal preocupação em córneas finas submetidas a cirurgia refrativa.
Tendências e Inovações em Cirurgia Refrativa
A cirurgia refrativa é uma das áreas da oftalmologia com maior ritmo de inovação tecnológica. Diversas tendências estão moldando o futuro do campo e merecem registro pela relevância clínica e potencial de transformação da prática.
SMILE Pro e Correção de Hipermetropia
A plataforma VISUMAX 800 (Zeiss) introduziu o SMILE Pro, evolução do SMILE original que reduz o tempo de aplicação do laser para menos de 10 segundos por olho e amplia as indicações para incluir a correção de hipermetropia — limitação histórica do SMILE. A aprovação regulatória para hipermetropia está em processo em diversos países, o que pode posicionar o SMILE como técnica verdadeiramente universal, competindo diretamente com o LASIK em toda a gama de erros refrativos.
Inteligência Artificial no Planejamento Cirúrgico
Softwares baseados em inteligência artificial estão sendo integrados ao planejamento pré-operatório da cirurgia refrativa. Algoritmos de aprendizado de máquina analisam padrões topográficos, tomográficos e biomecânicos para prever com maior precisão o resultado refrativo esperado, identificar contraindicações sutis invisíveis à análise humana convencional e recomendar a técnica cirúrgica mais adequada para cada perfil de paciente. Embora ainda em estágio de validação clínica em muitos centros, essas ferramentas representam evolução significativa na personalização do tratamento cirúrgico.
Lentes Intraoculares Fácicas de Nova Geração
A pesquisa em lentes fácicas avança na direção de materiais com maior biocompatibilidade, perfis ópticos otimizados e mecanismos de dimensionamento mais precisos baseados em biometria por tomografia de coerência óptica (OCT) da câmara anterior. A questão do vault — distância entre a face posterior da ICL e a face anterior do cristalino — permanece como variável crítica, e novos algoritmos de dimensionamento baseados em medidas diretas da câmara posterior por OCT têm demonstrado menor variabilidade nos resultados de vault em comparação com métodos tradicionais baseados apenas no diâmetro sulco a sulco estimado.
Resolução CFM 2.336/2023: Publicidade em Oftalmologia
A Resolução CFM nº 2.336/2023 estabelece regras de publicidade médica que impactam diretamente a comunicação de oftalmologistas sobre cirurgia refrativa. A resolução permite a divulgação de equipamentos e recursos tecnológicos utilizados no consultório ou centro cirúrgico, o que beneficia profissionais que investem em plataformas de laser de última geração. É permitida a publicação de imagens de antes e depois, desde que com caráter educativo, acompanhadas de texto informativo e com o consentimento formal do paciente.
A resolução proíbe promessas de resultados garantidos, sensacionalismo e apelo emocional excessivo. Para oftalmologistas que realizam cirurgia refrativa, isso significa que termos como “liberte-se dos óculos para sempre” ou “visão perfeita garantida” não são admitidos, pois nenhuma técnica cirúrgica garante resultado absoluto. Toda publicidade deve conter o nome do médico, CRM, especialidade registrada e, quando aplicável, o aviso de “NÃO ESPECIALISTA” para médicos sem título via residência credenciada ou prova da AMB.
Perguntas Frequentes sobre Cirurgia Refrativa
Qual a diferença entre LASIK e PRK?
A principal diferença está no método de acesso ao estroma corneano. No LASIK, um flap (lamela) de 100-120 micrômetros é criado e levantado antes da ablação a laser, permitindo recuperação visual rápida (24-48 horas). Na PRK, o epitélio é removido e o laser atua diretamente na superfície corneana, com recuperação mais lenta (1-3 meses), mas sem os riscos associados ao flap. A PRK é preferida para córneas finas, pacientes com risco de trauma ocular e topografias limítrofes. O resultado visual final é equivalente em olhos adequados para ambas as técnicas.
Qual o grau máximo que pode ser corrigido pela cirurgia refrativa?
Os limites dependem da técnica: LASIK corrige até -10 a -12 D de miopia e +4 a +6 D de hipermetropia; PRK até -6 a -8 D de miopia; SMILE até -10 D de miopia; e ICL até -18 D de miopia e +10 D de hipermetropia. Esses limites são gerais e variam conforme a espessura corneana individual, o diâmetro pupilar e a anatomia ocular. A avaliação pré-operatória determina o limite seguro para cada paciente.
O que é paquimetria e por que ela é importante na cirurgia refrativa?
Paquimetria é a medida da espessura da córnea, realizada por ultrassom ou tomografia óptica. A espessura corneana normal varia entre 520 e 560 micrômetros. Na cirurgia refrativa a laser, parte do tecido corneano é removida para alterar a curvatura, e é necessário manter um leito estromal residual mínimo de 280-300 micrômetros para prevenir ectasia pós-operatória. Córneas com paquimetria abaixo de 500 micrômetros são consideradas limítrofes para LASIK e podem ser direcionadas para PRK, SMILE ou ICL.
O SMILE é melhor que o LASIK?
Não existe técnica universalmente superior. O SMILE oferece vantagens em preservação de fibras nervosas corneanas (menor olho seco), maior resistência biomecânica (sem flap) e menor risco de complicações traumáticas. O LASIK oferece recuperação visual mais rápida, maior versatilidade na correção de hipermetropia e astigmatismos complexos, e possibilidade de tratamento customizado (wavefront-guided). A escolha depende do perfil do paciente: grau refrativo, espessura corneana, presença de olho seco, atividades profissionais e esportivas.
A cirurgia refrativa dói?
O procedimento em si é indolor, realizado sob anestesia tópica com colírio anestésico. No LASIK e SMILE, o desconforto pós-operatório é mínimo — sensação de areia nos olhos por algumas horas. Na PRK, o desconforto é mais significativo nos primeiros 2-3 dias, durante a regeneração do epitélio, com sensação de corpo estranho, lacrimejamento e fotofobia, manejáveis com analgésicos orais e colírios anti-inflamatórios.
Quem não pode fazer cirurgia refrativa?
As contraindicações absolutas incluem ceratocone ativo ou ectasias corneanas, gravidez e amamentação, instabilidade refrativa (variação > 0,50 D em 12 meses), doenças corneanas ativas e expectativas irrealistas do paciente. Contraindicações relativas incluem olho seco grave não controlado, doenças autoimunes ativas, herpes ocular prévio, diabetes descompensado e pupilas muito grandes em condições escotópicas. Cada caso deve ser avaliado individualmente com exames pré-operatórios completos.
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