Tensão de Passo, Tensão de Toque e Proteção de Pessoas em Sistemas de Aterramento

O que acontece quando uma corrente de falta atinge o solo

Quando uma corrente de falta — por defeito de isolamento ou descarga atmosférica — é drenada para o solo através do eletrodo de aterramento, ela se distribui de forma não uniforme pelo terreno. O potencial elétrico do solo é máximo no ponto de injeção (eletrodo) e diminui com a distância.

Essa distribuição gera gradientes de potencial que podem expor pessoas a tensões perigosas, mesmo sem contato direto com partes energizadas. É esse gradiente que define os conceitos de tensão de passo e tensão de toque.

Distribuição de potencial no solo

A corrente que entra no solo pelo eletrodo se dispersa radialmente. A resistência do solo não é concentrada — ela se distribui ao longo do volume de terra ao redor do eletrodo. No entanto, essa distribuição é fortemente concentrada nos primeiros metros.

Dado quantitativo fundamental: cerca de 50% da resistência total do eletrodo se concentra nos primeiros 15 cm ao redor da haste. Nos primeiros 3 metros de raio, aproximadamente 90% da queda de potencial já ocorreu.

Se uma haste de aterramento drena uma corrente de falta, e o potencial na superfície do solo junto à haste é de 12.500 V, a queda de potencial é extremamente abrupta. A diferença de potencial entre dois pontos separados por apenas um passo (≈ 1 metro) pode ser de centenas ou milhares de volts.

Tensão de passo

Tensão de passo é a diferença de potencial entre dois pontos do solo separados pela distância de um passo humano (convencionalmente 1 metro), medida na direção radial a partir do eletrodo de aterramento.

Uma pessoa caminhando próxima ao ponto de injeção de corrente no solo fica sujeita a essa diferença de potencial entre seus pés. A corrente resultante percorre o caminho pé-pé, atravessando as pernas.

Características da tensão de passo:

  • Máxima nas proximidades imediatas do eletrodo
  • Diminui rapidamente com a distância
  • Depende da resistividade do solo, da magnitude da corrente de falta e da geometria do eletrodo
  • O caminho da corrente (pé-pé) passa pela região pélvica, não pelo tórax

A tensão de passo é particularmente perigosa durante descargas atmosféricas em campo aberto e em subestações de alta tensão durante faltas à terra.

Tensão de toque

Tensão de toque é a diferença de potencial entre uma massa metálica (equipamento, estrutura, cerca) acessível ao toque e o ponto do solo onde a pessoa está de pé.

Quando um equipamento com falha de isolamento transfere potencial para sua carcaça, a pessoa que toca essa carcaça fica sujeita à diferença entre o potencial da massa e o potencial do solo sob seus pés. A corrente resultante percorre o caminho mão-pé, atravessando o tórax.

Essa é a condição mais perigosa: corrente atravessando a região torácica atinge o coração, com risco direto de fibrilação ventricular.

Tensão de contato

Tensão de contato é o termo mais abrangente: a tensão que efetivamente aparece entre duas partes do corpo de uma pessoa ao tocar simultaneamente dois pontos com potenciais diferentes. Pode ser uma combinação de tensão de toque (mão-pé) ou outras configurações (mão-mão, por exemplo).

A NBR 5410 define tensão limite de contato (UL):

Condição UL
Condições normais (locais secos) 50 V
Condições especiais (locais úmidos, canteiros) 25 V

Esses valores são os limites acima dos quais a proteção contra contatos indiretos deve atuar automaticamente.

Efeitos fisiológicos da corrente elétrica no corpo humano

A gravidade do choque depende da magnitude da corrente que atravessa o corpo, do caminho percorrido e do tempo de exposição. Os efeitos são progressivos:

Corrente (mA) Efeito fisiológico
~1 Percepção (formigamento)
~5 Eletrização (movimentos involuntários)
10 Tetanização (agarramento — a pessoa não consegue soltar)
25 Parada respiratória
~30 Asfixia (corrente pelo tórax)
60–75 Fibrilação ventricular (risco de morte)

O limiar de fibrilação ventricular — 60 a 75 mA — é atingido com tensões relativamente baixas quando a resistência do corpo é reduzida por umidade, suor, ferimentos ou contato com grandes superfícies metálicas.

O caminho mão-pé (tensão de toque) é mais perigoso que pé-pé (tensão de passo) porque a corrente atravessa a região cardíaca. Por isso, a tensão de toque recebe mais atenção no dimensionamento de proteção.

Por que o aterramento reduz (mas não elimina) o risco

O sistema de aterramento cumpre duas funções para a proteção de pessoas:

Limitar a tensão de contato: ao conectar todas as massas ao sistema de aterramento (equipotencialização), a diferença de potencial entre partes acessíveis é minimizada. Quanto menor a resistência do eletrodo, menor a elevação de potencial da massa em relação ao solo remoto durante uma falta.

Viabilizar a atuação dos dispositivos de proteção: a corrente de falta, ao circular pelo sistema de aterramento, deve ser suficiente para sensibilizar o dispositivo de proteção (DR, disjuntor) no tempo exigido pela norma.

Porém, o aterramento sozinho não garante segurança. A proteção depende do conjunto: eletrodo + equipotencialização + dispositivo de proteção + dimensionamento correto.

Medidas práticas de proteção contra tensão de passo e toque

Equipotencialização: conectar todas as massas, tubulações metálicas, estruturas, ferragens e eletrodos ao BEP (Barramento de Equipotencialização Principal). A equipotencialização reduz a diferença de potencial entre pontos acessíveis simultaneamente.

Malha de aterramento com gradiente controlado: em subestações e instalações de grande porte, a malha de cabos enterrada equaliza o potencial da superfície do solo, reduzindo o gradiente de tensão de passo. O dimensionamento segue critérios do IEEE Std 80.

Camada superficial de alta resistividade: aplicação de brita ou material isolante sobre o solo na área de operação. A camada de brita (tipicamente 3.000 Ω·m) aumenta a resistência de contato entre os pés e o solo, reduzindo a corrente que atravessa o corpo.

Dispositivos de proteção adequados: DR com sensibilidade compatível com a tensão limite de contato. Em locais úmidos e canteiros de obras, a norma reduz UL para 25 V, exigindo DR de maior sensibilidade ou resistência de aterramento mais baixa.

Restrição de acesso: em subestações e áreas com gradientes de potencial significativos, cercas e barreiras evitam o acesso de pessoas não qualificadas durante faltas.

Caso prático: descarga atmosférica em haste isolada

Uma descarga atmosférica injeta uma corrente de pico da ordem de 30 kA no solo por uma haste de aterramento. Se a resistência do eletrodo é 20 Ω, o potencial da haste em relação ao solo remoto atinge 600 kV.

A tensão de passo a 1 metro da haste pode ultrapassar 100 kV. Uma pessoa caminhando nessa região sofre um choque pé-pé potencialmente fatal, mesmo sem tocar em nada.

Isso demonstra por que o SPDA exige eletrodo em anel (NBR 5419:2026), não apenas hastes isoladas: o anel distribui a corrente em um perímetro, reduzindo o gradiente de potencial na superfície.

Conclusão técnica

Tensão de passo e tensão de toque são consequências diretas da distribuição de potencial no solo durante uma falta. A gravidade depende da magnitude da corrente, da geometria do eletrodo, da resistividade do solo e do caminho percorrido pela corrente no corpo.

A proteção efetiva exige: equipotencialização completa, dispositivos de proteção corretamente dimensionados, geometria do eletrodo que controle o gradiente de potencial e, em subestações, camada superficial de alta resistividade.

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Perguntas frequentes

Quais sinais antecipam uma falha de aterramento?

Geralmente não — o sistema aparenta funcionar até o evento elétrico.

Como medir a resistência de aterramento em um canteiro?

Medição da resistência de aterramento com terrômetro calibrado.

Como a resistividade do solo afeta o desempenho do aterramento?

Sim, diretamente. Resistividade, composição e umidade determinam a capacidade de dissipação.

Com que frequência medir?

Periodicamente e sempre que houver alterações no sistema elétrico ou condições do solo.

Quem pode executar e validar o aterramento?

Profissional habilitado conforme a NR-10, com responsabilidade técnica documentada.

É possível validar o aterramento sem medição instrumentada?

Não — há apenas suposição.

Como saber se o aterramento está funcionando?

Apenas com medição de resistência usando terrômetro calibrado.

Qual a resistência máxima aceitável?

A NBR 5410 define no máximo 10 ohms para sistemas de baixa tensão em geral, mas o valor pode variar conforme o projeto elétrico.

Uma haste basta para aterrar um canteiro de obras?

Não necessariamente. Depende da resistividade do solo e das características do sistema elétrico.

Por que conexões e continuidade definem um aterramento seguro?

Não. Instalação física e desempenho elétrico são coisas distintas — é necessário validar com medição.

De onde vem a regra dos “10 Ω”?

Pergunte a dez eletricistas qual é a resistência máxima de aterramento permitida por norma. A maioria responderá: 10 Ω. Alguns dirão que a NBR 5410 exige esse valor. Outros atribuirão à NR-10. Nenhuma dessas normas prescreve 10 Ω como limite fixo de resistência de aterramento. Esse número se consolidou por repetição — em cursos, laudos e manuais antigos — e virou dogma. Na prática, laudos que atestam “resistência de aterramento inferior a 10 Ω — instalação conforme” sem analisar o esquema de aterramento são, no mínimo, tecnicamente inconsistentes.

O que são terra, neutro e massa?

A confusão entre terra, neutro e massa é um dos erros conceituais mais frequentes em instalações elétricas brasileiras. São três conceitos distintos com funções elétricas diferentes, e tratá-los como sinônimos compromete a segurança e o dimensionamento do sistema de proteção. Pelo neutro circula corrente em operação normal. Pelo terra, não. Essa frase resume a distinção fundamental. Mas cada conceito tem definição própria, condutor próprio e função específica no circuito.

Aterramento provisório de canteiro pode ser improvisado?

Não — deve seguir critérios técnicos completos, independentemente da duração da obra.

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