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Fratura de Fêmur: Classificação, Tratamento Cirúrgico e Reabilitação

Fratura de Fêmur: Um Problema de Saúde Pública A fratura de fêmur é a fratura mais comum dos membros inferiores […]

Fratura de Fêmur: Um Problema de Saúde Pública

A fratura de fêmur é a fratura mais comum dos membros inferiores e representa uma das emergências ortopédicas de maior impacto no sistema de saúde brasileiro. Estima-se que em 2050 ocorrerão 6,5 milhões de fraturas de quadril no mundo, com destaque para as fraturas da extremidade proximal do fêmur. No Brasil, a proporção entre os sexos é de aproximadamente três mulheres para cada homem acometido, com média de idade de 79 anos nos pacientes internados por essa condição.

A taxa de mortalidade associada à fratura de fêmur proximal em idosos situa-se entre 12% e 37% no primeiro ano após o evento. Dados do DATASUS mostram que aproximadamente 1 a cada 15 idosos internados por fratura de quadril vai a óbito durante a hospitalização. Apenas 15% dos pacientes recuperam a capacidade funcional prévia à fratura, e cerca de 40% apresentam incapacidade funcional grave após o evento. Esses números demonstram que a fratura de fêmur não é apenas um problema ortopédico, mas uma condição sistêmica que exige abordagem multidisciplinar. O custo para o sistema público de saúde é igualmente significativo, com média anual de milhões de reais em internações, cirurgias e reabilitação.

Anatomia do Fêmur: Regiões de Fratura

O fêmur é o maior e mais resistente osso do corpo humano. Sua extremidade proximal (superior) conecta-se ao acetábulo do osso ilíaco para formar a articulação do quadril. A compreensão da anatomia femoral é essencial para classificar as fraturas e definir a estratégia de tratamento.

Divisão Anatômica da Extremidade Proximal

A extremidade proximal do fêmur compreende quatro regiões anatômicas distintas, cada uma com implicações específicas para o tratamento:

Região Localização Vascularização Implicação Clínica
Cabeça femoral Superfície articular esférica que se articula com o acetábulo Vulnerável — artéria circunflexa medial Risco elevado de necrose avascular em fraturas com desvio
Colo femoral Segmento entre a cabeça e a região trocantérica (intracapsular) Dependente dos vasos retinaculares Fraturas intracapsulares comprometem o suprimento vascular
Região trocantérica Entre o grande e o pequeno trocânter (extracapsular) Rica em vasos periostais Melhor prognóstico de consolidação, mas alta mortalidade em idosos
Região subtrocantérica Abaixo do pequeno trocânter, nos primeiros 5 cm da diáfise Suprimento cortical Forças biomecânicas intensas dificultam a fixação

A distinção entre fraturas intracapsulares (colo femoral) e extracapsulares (trocantéricas e subtrocantéricas) é fundamental porque determina o risco de comprometimento vascular da cabeça femoral. As fraturas intracapsulares apresentam taxas significativamente maiores de pseudoartrose (não consolidação), consolidação viciosa e necrose avascular, pois o suprimento sanguíneo da cabeça do fêmur é facilmente interrompido quando a fratura ocorre dentro da cápsula articular.

Classificação das Fraturas do Fêmur Proximal

Classificação de Garden (Fraturas do Colo Femoral)

A classificação de Garden é o sistema mais utilizado na prática clínica para fraturas do colo do fêmur. Baseia-se no grau de desvio dos fragmentos observado na radiografia anteroposterior da pelve e do quadril acometido.

Tipo Descrição Desvio Conduta Habitual
Garden I Fratura incompleta (impactada em valgo) Sem desvio significativo Osteossíntese com parafusos canulados
Garden II Fratura completa sem desvio Sem desvio Osteossíntese com parafusos canulados
Garden III Fratura completa com desvio parcial Desvio parcial em varo Osteossíntese em jovens (<65 anos); artroplastia em idosos
Garden IV Fratura completa com desvio total Desvio completo, sem contato entre fragmentos Artroplastia (parcial ou total)

Na prática, a classificação de Garden é frequentemente simplificada em dois grupos: fraturas sem desvio (Garden I e II) e fraturas com desvio (Garden III e IV). Essa simplificação orienta a decisão terapêutica principal: osteossíntese para fraturas sem desvio, artroplastia para fraturas com desvio em pacientes acima de 65 anos.

Classificação AO/OTA

A classificação da Associação para Osteossíntese (AO), também adotada pela Orthopaedic Trauma Association (OTA), é o sistema mais abrangente e é amplamente utilizado em pesquisa e publicações científicas. As fraturas do fêmur proximal são codificadas como região 31 (osso 3 = fêmur, segmento 1 = proximal) e subdivididas em três tipos principais:

Código AO Tipo Subtipos
31-A Fraturas trocantéricas (extracapsulares) A1 (simples), A2 (multifragmentárias), A3 (intertrocantéricas reversas)
31-B Fraturas do colo femoral (intracapsulares) B1 (subcapital com pouco desvio), B2 (transcervical), B3 (subcapital com desvio)
31-C Fraturas da cabeça femoral C1 (por cisalhamento), C2 (com depressão), C3 (com fratura do colo)

Classificação de Pipkin (Fraturas da Cabeça Femoral)

As fraturas da cabeça femoral, embora menos frequentes, são classificadas segundo Pipkin em quatro tipos. Pipkin I envolve fratura abaixo da fóvea (zona de carga); Pipkin II, fratura acima da fóvea; Pipkin III associa fratura da cabeça à fratura do colo femoral; e Pipkin IV combina fratura da cabeça com fratura do acetábulo. Cada tipo demanda abordagem cirúrgica específica, variando de tratamento conservador (Pipkin I com redução congruente) até artroplastia total primária com reconstrução acetabular (Pipkin IV em idosos).

Mecanismos de Trauma

Trauma de Baixa Energia (Idosos)

Em pacientes idosos, a fratura de fêmur resulta predominantemente de queda da própria altura. Estudos epidemiológicos brasileiros demonstram que o trauma de baixa energia é responsável por mais de 92% das fraturas do fêmur proximal em idosos. A osteoporose — doença silenciosa caracterizada pela diminuição de massa óssea — fragiliza a estrutura femoral a ponto de uma queda simples ser suficiente para provocar fratura.

Os fatores de risco para queda e fratura em idosos incluem osteoporose, idade avançada, sexo feminino, etnia branca, uso de benzodiazepínicos e sedativos, déficit visual, alterações de marcha e equilíbrio, e fatores ambientais domésticos como tapetes soltos, iluminação inadequada e ausência de barras de apoio em banheiros.

Trauma de Alta Energia (Jovens e Adultos)

Em pacientes jovens, as fraturas femorais geralmente resultam de trauma de alta energia: acidentes automobilísticos, motociclísticos, quedas de altura ou lesões esportivas. Nesses casos, a fratura pode envolver a diáfise (corpo) do fêmur ou a região proximal, frequentemente com padrões de fratura mais complexos e associação com outras lesões traumáticas (politrauma).

As fraturas diafisárias do fêmur em adultos jovens são tratadas preferencialmente com haste intramedular bloqueada, que oferece fixação estável com mínima exposição do foco de fratura. O procedimento permite carga parcial precoce e apresenta taxas de consolidação superiores a 95%. Em politraumatizados, o controle de danos ortopédico — com fixação externa provisória seguida de conversão para fixação definitiva — pode ser necessário quando as condições sistêmicas do paciente não permitem cirurgia definitiva imediata.

As fraturas patológicas do fêmur — aquelas que ocorrem em osso previamente enfraquecido por tumor, metástase óssea ou doença metabólica — constituem um grupo especial que exige investigação diagnóstica específica antes do tratamento cirúrgico definitivo, pois a condução terapêutica depende da natureza da lesão subjacente e do prognóstico oncológico.

Diagnóstico

Avaliação Clínica

O quadro clínico típico de fratura do fêmur proximal em idosos inclui dor intensa no quadril após queda, incapacidade de deambulação, encurtamento e rotação externa do membro acometido. À inspeção, o membro fraturado apresenta-se mais curto e com o pé em rotação externa. A palpação da região inguinal e do grande trocânter revela dor significativa. A mobilização ativa ou passiva do quadril é extremamente dolorosa e deve ser limitada ao mínimo necessário para o diagnóstico.

Exames de Imagem

A radiografia simples é o exame de primeira linha para diagnóstico de fraturas do fêmur. A incidência anteroposterior (AP) da pelve e a incidência axial do quadril acometido permitem classificar a fratura e planejar o tratamento na maioria dos casos. Em situações de dúvida diagnóstica — especialmente em fraturas sem desvio (Garden I) que podem não ser evidentes na radiografia — a tomografia computadorizada (TC) ou a ressonância magnética (RM) são indicadas para confirmar o diagnóstico. A RM é particularmente útil para detectar fraturas ocultas e avaliar a viabilidade vascular da cabeça femoral.

Avaliação Pré-Operatória

A avaliação pré-operatória do paciente idoso com fratura de fêmur deve ser abrangente e rápida. Exames laboratoriais (hemograma, coagulograma, função renal, glicemia, eletrólitos), eletrocardiograma e radiografia de tórax são solicitados rotineiramente. A classificação ASA (American Society of Anesthesiologists) é utilizada para estratificar o risco anestésico-cirúrgico. Estudos demonstram que o escore ASA é um preditor significativo de desfecho funcional e mortalidade em pacientes com fratura de fêmur proximal. A compensação de comorbidades descompensadas (insuficiência cardíaca, diabetes, distúrbios hidroeletrolíticos) deve ser realizada de forma ágil, sem postergar excessivamente a cirurgia — o tempo de espera prolongado até o procedimento é fator independente de mortalidade.

Tratamento Cirúrgico

O tratamento da fratura de fêmur proximal é predominantemente cirúrgico. O objetivo é proporcionar estabilização mecânica suficiente para permitir a mobilização precoce do paciente, reduzindo o tempo de imobilização no leito e suas complicações associadas (trombose venosa profunda, embolia pulmonar, pneumonia, úlceras de pressão). A decisão entre osteossíntese e artroplastia depende do tipo de fratura, da idade do paciente, do nível funcional prévio e das comorbidades.

O tempo entre a fratura e a cirurgia é um fator crítico de prognóstico. As diretrizes internacionais recomendam que a cirurgia seja realizada preferencialmente nas primeiras 24 a 48 horas após a admissão hospitalar. Cada dia adicional de espera aumenta o risco de complicações clínicas e a mortalidade. No Brasil, o tempo médio de espera até a cirurgia em hospitais públicos é de aproximadamente 7 dias — significativamente acima do recomendado — devido a fatores como disponibilidade de sala cirúrgica, equipe e implantes.

A escolha do tipo de anestesia (geral ou raquianestesia/bloqueio) é individualizada. A raquianestesia é frequentemente preferida em pacientes idosos por estar associada a menor incidência de trombose venosa profunda, menor perda sanguínea intraoperatória e menor confusão mental pós-operatória. A cirurgia dura em média 60 a 120 minutos, dependendo do tipo de procedimento: osteossíntese com parafusos canulados é mais rápida (40-60 minutos), enquanto artroplastia total do quadril pode requerer 90 a 120 minutos. O tempo de internação pós-operatório médio é de 7 a 14 dias em osteossínteses e de 10 a 15 dias em artroplastias, com variação significativa conforme as comorbidades do paciente.

Osteossíntese (Fixação Interna)

A osteossíntese consiste na fixação dos fragmentos ósseos em posição anatômica, preservando a cabeça femoral do paciente. É indicada principalmente para fraturas sem desvio (Garden I e II), fraturas trocantéricas e pacientes jovens com fraturas do colo femoral. Os principais métodos de osteossíntese incluem:

Método Indicação Principal Características
Parafusos canulados (2-3 parafusos) Fraturas do colo sem desvio (Garden I-II) Técnica minimamente invasiva, rápida, baixo sangramento
Placa-parafuso deslizante (DHS — Dynamic Hip Screw) Fraturas trocantéricas estáveis Permite compressão dinâmica no foco de fratura
Haste cefalomedular (PFN, Gamma Nail, TFN) Fraturas trocantéricas instáveis e subtrocantéricas Fixação intramedular com parafuso cefálico; maior resistência biomecânica
Placa e parafusos bloqueados Fraturas subtrocantéricas complexas Fixação com estabilidade angular; indicada em fraturas multifragmentárias

Em pacientes jovens (abaixo de 65 anos) com fraturas do colo femoral com desvio (Garden III e IV), a tentativa de redução e osteossíntese é priorizada para preservar a cabeça femoral, mesmo sabendo-se do risco de necrose avascular. A cirurgia realizada nas primeiras 24 horas após o trauma apresenta menor incidência de necrose avascular da cabeça femoral em comparação com procedimentos tardios.

Artroplastia (Substituição Articular)

A artroplastia consiste na substituição da articulação do quadril por uma prótese. É o tratamento de escolha para fraturas do colo femoral com desvio (Garden III e IV) em pacientes acima de 65 anos, pacientes com artrose preexistente do quadril e situações em que a osteossíntese apresenta baixa probabilidade de sucesso.

Existem dois tipos de artroplastia para fratura de fêmur:

A artroplastia parcial (hemiartroplastia) substitui apenas o componente femoral (cabeça e colo), preservando o acetábulo natural do paciente. É indicada para pacientes idosos com baixa demanda funcional, expectativa de vida limitada e acetábulo sem alterações degenerativas significativas. É o procedimento mais frequente em fraturas do colo femoral em idosos por ser mais rápido, com menor sangramento e menor risco de luxação.

A artroplastia total do quadril substitui tanto o componente femoral quanto o acetabular. É indicada para pacientes mais ativos, com boa expectativa de vida e acetábulo com sinais de artrose. Proporciona melhor resultado funcional a longo prazo, porém com maior tempo cirúrgico, sangramento e risco de luxação no pós-operatório imediato.

Fraturas Trocantéricas: Abordagem Específica

As fraturas trocantéricas representam a maioria das fraturas do fêmur proximal em pacientes idosos — aproximadamente 57,5% a 60,7% dos casos em estudos epidemiológicos brasileiros. Acometem predominantemente mulheres com idade superior a 75 anos e estão fortemente associadas à osteoporose.

O tratamento padrão-ouro para fraturas trocantéricas é a osteossíntese com fixação interna. A artroplastia é reservada para situações especiais, como falha da osteossíntese, artrose ipsilateral sintomática ou fraturas em osso gravemente osteoporótico com padrão de cominuição que torna a fixação inviável. O objetivo do tratamento é a estabilização rápida com mínima espoliação ao paciente, visando mobilização precoce.

A mortalidade associada às fraturas trocantéricas é significativa: a taxa de mortalidade intra-hospitalar gira em torno de 7%, e a mortalidade no primeiro ano varia de 20% a 30%. Os principais fatores associados à mortalidade são a idade avançada, comorbidades (insuficiência renal crônica, cardiopatias, diabetes), estado cognitivo comprometido, tempo de espera prolongado até a cirurgia e tipo de anestesia utilizada.

Reabilitação Pós-Operatória

Fase Hospitalar (Primeiros Dias)

A reabilitação inicia-se no primeiro dia pós-operatório. Os objetivos imediatos incluem controle da dor, prevenção de trombose venosa profunda (profilaxia medicamentosa e mecânica), prevenção de úlceras de pressão, exercícios respiratórios para prevenir complicações pulmonares e mobilização progressiva. O paciente é orientado a sentar-se à beira do leito e, quando possível, iniciar marcha assistida com andador ou muletas sob supervisão fisioterapêutica.

Fase Ambulatorial (Semanas a Meses)

A reabilitação ambulatorial é fundamental para a recuperação funcional. O programa inclui exercícios de fortalecimento muscular (quadríceps, glúteos, abdutores), treino de equilíbrio e propriocepção, treinamento de marcha com progressiva retirada de apoio externo, e atividades funcionais de vida diária. A liberação para apoio total sobre o membro operado depende do tipo de fratura, do método de fixação e da avaliação radiográfica de consolidação. Em osteossínteses, o apoio total é geralmente autorizado após confirmação radiológica de consolidação, em prazo médio de 8 a 12 semanas.

Retorno Funcional

A recuperação funcional completa pode levar de 6 a 12 meses. Infelizmente, os dados epidemiológicos mostram que apenas cerca de 15% dos pacientes idosos recuperam plenamente o nível funcional prévio à fratura. A adesão ao programa de reabilitação, o suporte familiar, o tratamento da osteoporose e a prevenção de novas quedas são determinantes para o resultado funcional a longo prazo.

A avaliação funcional periódica utilizando escalas validadas — como a escala de Harris Hip Score, o Timed Up and Go Test (TUG) e o índice de Barthel para atividades de vida diária — permite monitorar a evolução do paciente e ajustar o programa de reabilitação. O acompanhamento ortopédico ambulatorial inclui controles radiográficos para avaliar consolidação da fratura e posicionamento do implante nos primeiros 3, 6 e 12 meses pós-operatórios.

A abordagem multidisciplinar — envolvendo ortopedista, geriatra, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, nutricionista e assistente social — é considerada o padrão de excelência no manejo do paciente idoso com fratura de fêmur. Programas de ortogeriatria, nos quais o geriatra participa ativamente desde a internação até a alta, demonstram redução significativa na mortalidade e melhor recuperação funcional. Para profissionais de psicologia clínica, a atenção ao estado emocional e cognitivo do paciente idoso fraturado é um campo relevante de atuação, considerando que depressão e declínio cognitivo são frequentes após o evento.

Prevenção de Fraturas do Fêmur em Idosos

A prevenção da fratura de fêmur em idosos envolve duas estratégias complementares: tratamento da osteoporose e prevenção de quedas.

Tratamento da Osteoporose

Estudos epidemiológicos brasileiros revelam que, entre os pacientes internados por fratura de fêmur proximal, apenas cerca de 30% relatam diagnóstico prévio de osteoporose, e menos de 1% está em tratamento adequado para a doença no momento da fratura. A densitometria óssea (exame de DEXA) é o método padrão para diagnóstico de osteoporose e deve ser realizada rotineiramente em mulheres acima de 65 anos e homens acima de 70 anos, ou mais cedo na presença de fatores de risco.

O tratamento farmacológico da osteoporose inclui suplementação de cálcio e vitamina D, bisfosfonatos (alendronato, risedronato, ácido zoledrônico), denosumabe, teriparatida e romosozumabe, conforme a gravidade da doença e o perfil do paciente. A atividade física regular — especialmente exercícios com carga e resistência — contribui para a manutenção da massa óssea e deve ser parte integral do tratamento.

Prevenção de Quedas

A prevenção de quedas em idosos envolve avaliação e correção de fatores de risco modificáveis: revisão de medicações que causam tontura ou hipotensão postural (benzodiazepínicos, anti-hipertensivos, sedativos), correção de déficits visuais, programa de exercícios para equilíbrio e fortalecimento muscular (como o tai chi chuan), e adaptações no ambiente domiciliar — instalação de barras de apoio em banheiros, remoção de tapetes soltos, melhoria da iluminação e eliminação de obstáculos nos trajetos de circulação.

A Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) recomendam avaliação multifatorial de risco de quedas para todo idoso acima de 65 anos. A implementação de programas comunitários de prevenção de quedas — combinando exercícios em grupo, educação em saúde e visitas domiciliares para avaliação ambiental — demonstra redução significativa na incidência de quedas e fraturas em populações idosas. A relação entre saúde óssea e saúde bucal em pacientes geriátricos também é um campo de investigação crescente, especialmente no contexto da reabilitação oral com implantes em pacientes osteoporóticos.

Complicações das Fraturas do Fêmur

Complicação Descrição Fatores de Risco
Necrose avascular da cabeça femoral Morte do tecido ósseo por interrupção do suprimento vascular Fraturas intracapsulares com desvio, atraso cirúrgico >24h
Pseudoartrose (não consolidação) Falha na consolidação óssea após tempo esperado Fraturas intracapsulares, desvio, instabilidade da fixação
Trombose venosa profunda (TVP) Formação de coágulo nas veias profundas dos membros inferiores Imobilização prolongada, cirurgia de grande porte, idade avançada
Embolia pulmonar Migração de coágulo para artérias pulmonares Complicação da TVP; potencialmente fatal
Infecção Infecção superficial ou profunda do sítio cirúrgico Diabetes, imunossupressão, tempo cirúrgico prolongado
Falha da fixação (cut-out) Migração do implante através do osso osteoporótico Osteoporose grave, posicionamento inadequado do implante

Conclusão

A fratura de fêmur representa um desafio clínico que transcende a ortopedia. A abordagem ideal exige diagnóstico preciso com classificação adequada, tratamento cirúrgico oportuno — preferencialmente nas primeiras 48 horas —, reabilitação multidisciplinar e estratégias de prevenção de novas fraturas. O tratamento da osteoporose e a prevenção de quedas são medidas essenciais para reduzir a incidência desta condição que impacta severamente a qualidade de vida e a sobrevida de pacientes idosos.

O avanço dos materiais de implante, as técnicas cirúrgicas minimamente invasivas e os programas de ortogeriatria representam evolução significativa no manejo dessas fraturas nas últimas décadas. No entanto, a prevenção primária — diagnóstico precoce da osteoporose, atividade física regular e adaptação do ambiente domiciliar — continua sendo a estratégia mais eficaz e custo-efetiva para reduzir o impacto socioeconômico e humano das fraturas do fêmur na população idosa brasileira.

Para compreender outras condições ortopédicas e seus tratamentos, como lesões articulares e procedimentos de reabilitação, o AEOMaps mantém conteúdo técnico baseado em fontes oficiais e publicações da SBOT.

FAQ — Perguntas Frequentes sobre Fratura de Fêmur

Qual é a classificação de Garden para fraturas do colo do fêmur?

A classificação de Garden divide as fraturas do colo femoral em quatro tipos: Garden I (incompleta, impactada em valgo), Garden II (completa sem desvio), Garden III (completa com desvio parcial) e Garden IV (completa com desvio total). Na prática, simplifica-se em dois grupos: sem desvio (I-II) e com desvio (III-IV), orientando a escolha entre osteossíntese e artroplastia.

Quando é indicada osteossíntese e quando artroplastia na fratura de fêmur?

A osteossíntese é indicada em fraturas do colo sem desvio (Garden I-II) e em fraturas trocantéricas. A artroplastia é indicada em fraturas do colo com desvio (Garden III-IV) em pacientes acima de 65 anos. Em jovens com fraturas desviadas, tenta-se a osteossíntese para preservar a cabeça femoral, especialmente se a cirurgia é realizada nas primeiras 24 horas.

Qual a taxa de mortalidade da fratura de fêmur em idosos?

A taxa de mortalidade associada à fratura de fêmur proximal em idosos varia de 12% a 37% no primeiro ano após a fratura. A mortalidade intra-hospitalar gira em torno de 7%. Fatores como idade avançada, comorbidades, tempo de espera até a cirurgia e estado cognitivo influenciam significativamente o prognóstico.

Quanto tempo leva a recuperação de uma fratura de fêmur?

A consolidação óssea ocorre em prazo médio de 8 a 12 semanas em osteossínteses. A recuperação funcional completa pode levar de 6 a 12 meses. Apenas cerca de 15% dos pacientes idosos recuperam plenamente o nível funcional prévio. A adesão à fisioterapia, o tratamento da osteoporose e a prevenção de quedas são determinantes para o resultado.

Como prevenir fraturas do fêmur em idosos?

A prevenção envolve diagnóstico e tratamento da osteoporose (densitometria óssea, suplementação de cálcio e vitamina D, bisfosfonatos), prevenção de quedas (revisão de medicações, correção visual, exercícios de equilíbrio, adaptações no domicílio) e manutenção de atividade física regular com exercícios de carga e resistência.

O que é necrose avascular da cabeça do fêmur?

A necrose avascular é a morte do tecido ósseo da cabeça femoral por interrupção do suprimento sanguíneo. Ocorre predominantemente em fraturas intracapsulares com desvio (Garden III-IV), especialmente quando há atraso superior a 24 horas para o tratamento cirúrgico. Quando instalada, pode exigir artroplastia como tratamento definitivo.

Qual a diferença entre fratura intracapsular e extracapsular do fêmur?

A fratura intracapsular ocorre dentro da cápsula articular do quadril (região do colo femoral) e apresenta maior risco de comprometimento vascular da cabeça do fêmur, com taxas mais elevadas de necrose avascular e pseudoartrose. A fratura extracapsular (trocantérica e subtrocantérica) ocorre fora da cápsula, possui melhor prognóstico de consolidação, mas ainda apresenta alta mortalidade em idosos.

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Ortopedia e Traumatologia Fratura de Fêmur: Classificação, Tratamento e Reabilitação
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